Alana Cabral: "Vejo minha geração como muito questionadora, sensível e aberta ao diálogo”
Anamaria

Por Renan Pereira e Lígia Menezes
Aos 18 anos, Alana Cabral está no horário nobre, como Joélly de Três Graças, novela das nove criada por Aguinaldo Silva. Na trama, sua personagem repete a história da mãe e da avó ao enfrentar uma gravidez na adolescência, tema recorrente na realidade brasileira. Para construir o papel, a atriz buscou relatos reais e conversas com mulheres que passaram por situações semelhantes. “A Joélly não é só uma estatística, ela é uma menina cheia de sonhos, medos e contradições”, afirma.
Acostumada aos estúdios desde a infância, Alana já participou de produções como Verão 90 e Nos Tempos do Imperador, mas reconhece que o horário das nove traz outra dimensão de exposição. “Hoje me sinto mais consciente, mais preparada emocionalmente para lidar com a exposição, mas sigo aprendendo”, diz. No set, divide cenas com nomes experientes como Dira Paes e Sophie Charlotte, com quem afirma ter aprendido principalmente pela observação.
Fora das telas, mantém uma rotina discreta e interesses ligados à leitura, cinema e momentos em família. Ainda avalia cursar psicologia ou cinema, áreas que, segundo ela, dialogam com a atuação. Ao comentar as críticas dirigidas à geração Z, responde com firmeza: “Vejo minha geração como muito questionadora, sensível e aberta ao diálogo.”
Sua personagem Joélly vive um drama muito comum em nosso país: a gravidez precoce. Como você se preparou para esse trabalho?
A preparação foi muito além do texto. Eu busquei ouvir histórias reais, ler depoimentos, conversar com mulheres que passaram por situações parecidas. Também contei muito com a direção, com meus colegas de set e com o cuidado e a delicadeza ímpares do autor em tratar o tema com tanto respeito. A Joélly não é só uma estatística — ela é uma menina cheia de sonhos, medos e contradições, e eu precisava honrar isso.
Como tem sido contracenar com atrizes tão experientes como Dira Paes e Sophie Charlotte?
É um privilégio enorme. A Dira e a Sophie são referências não só pelo talento, mas pela postura no set. Elas ensinam muito mais pelo exemplo do que por palavras. Observando, você aprende sobre troca, generosidade em cena e profissionalismo. Sempre que surge uma conversa, vem com muito carinho.
Como você foi recebida pelo elenco, que é veterano? Ficou insegura? Quem mais te “abraçou”?
No começo, ainda passamos por muitas descobertas e pela experiência de fazer algo pela primeira vez, é natural. Eu fui muito bem recebida. Me senti acolhida desde o primeiro dia. Algumas pessoas foram fundamentais nesse processo, me dando segurança, trocando ideias e criando um ambiente leve. Isso faz toda a diferença.
Você se encontrou pessoalmente com Aguinaldo Silva para falar sobre sua personagem? Pode nos falar sobre sua relação com ele?
Ainda em preparação, encontrei Aguinaldo, Virgílio e Zé da Silva. Foi muito bom conhecer o ponto de vista dos autores, criadores da minha personagem. Dar vida à Joélly depois dessa troca foi muito mais interessante.
Sua personagem traz uma questão muito importante para as mulheres: a educação sexual. Como foi esse tema na sua casa e na escola?
Na minha casa, sempre existiu espaço para o diálogo, mesmo com assuntos mais sensíveis. Acho que isso faz muita diferença. Dependendo da escola, como acontece com muitas pessoas, o tema às vezes era tratado de forma superficial. A Joélly escancara o quanto a falta de informação pode impactar vidas, e falar sobre isso é urgente.
Seu irmão também já trabalhou como ator. Como você escolheu esta profissão?
A atuação entrou na minha vida de forma muito natural. Cresci nesse ambiente, observando, me encantando com o processo. Em algum momento percebi que não era só curiosidade, era vontade de contar histórias, de me expressar. A escolha veio do coração, mas também com muita responsabilidade. Meu irmão se interessou pela atuação depois de me ver no teatro e passou a gostar também.
Acho que a gente nunca está totalmente “experiente”, porque tudo muda o tempo todo. Hoje me sinto mais consciente, mais preparada emocionalmente para lidar com a exposição, mas sigo aprendendo. Tento manter os pés no chão e lembrar sempre da razão pela qual escolhi essa profissão.
Fora das telas, como é sua vida? Pode nos falar sobre sua rotina, hobbies, principais interesses?
Sou bem caseira. Gosto de estar com minha família, amigos, ouvir música, assistir filmes e séries. Também gosto de ler e de momentos de silêncio. São coisas simples, mas que me ajudam a recarregar e a me manter conectada comigo mesma, como me conectar com a natureza.
Você se sente uma garota mais responsável ou acha que tem um lado mais romântico e sonhador como a Joélly?
Em relação ao ensino superior, você já disse que pensa em estudar psicologia ou cinema. Já se decidiu?
Ainda não é uma decisão fechada. A psicologia me interessa muito por ajudar a entender o ser humano, e o cinema é uma paixão antiga. No momento, a novela ocupa grande parte do meu tempo, mas estudar continua sendo um plano importante para mim.
Você começou cedo na atuação. Como sua família lidou com os rendimentos do seu trabalho? Isso contribuiu para sua autonomia?
Minha família sempre teve uma postura muito responsável. Tudo foi tratado com cuidado, pensando no futuro. Isso me ajudou a desenvolver consciência financeira e autonomia desde cedo, sem perder a noção do valor do trabalho.
Como ter o pé no chão e não deslumbrar começando tão cedo na carreira de atriz? Quem te orienta nesse sentido?
A base familiar é fundamental. Tenho pessoas muito próximas que me lembram de quem eu sou, independentemente do trabalho. Isso ajuda a não confundir sucesso com identidade. O carinho e a verdade dessas relações mantêm tudo no lugar.
Como você lida com as críticas à geração Z? O que você acha da sua geração?
Vejo minha geração como muito questionadora, sensível e aberta ao diálogo. Claro que existem desafios, mas também existe uma vontade real de transformar, de falar sobre saúde mental, inclusão, empatia. Acho importante ouvir as críticas, mas também reconhecer as potências.

