Ana Paula Araújo: “Acredito demais na energia que a gente coloca nas coisas”
Anamaria

Por Renan Pereira e Lígia Menezes
À frente do Bom Dia Brasil há mais de uma década, Ana Paula Araújo construiu uma trajetória marcada por coberturas de grande impacto e pela capacidade de traduzir o factual sem perder a dimensão humana dos acontecimentos.
Nos últimos anos, essa abordagem ultrapassou a televisão e ganhou forma também nos livros. Em Abuso – A Cultura do Estupro no Brasil e Agressão – a escalada da violência doméstica no Brasil, a jornalista mergulha em relatos, dados e investigações para traçar um panorama de violências que atravessam o cotidiano de milhares de mulheres. “Eu já tinha uma voz, depois de tantos anos de trabalho, e percebi que poderia usá-la para mais coisas”, conta.
Antes da televisão, a relação com o trabalho começou ainda na adolescência. Aos 14 anos, dava aulas de piano para ajudar nas despesas de casa. Hoje, mãe de Melissa, de 20 anos, Ana Paula descreve também sua relação com a filha e com a fé, demonstrada principalmente pela gratidão que sente por sua trajetória.
Ana, você tem dois livros que tratam sobre as violências que as mulheres sofrem diariamente. O que te motivou, de fato, a mergulhar nestes temas? Teve algum episódio em especial que te encorajou a seguir por este caminho?
Eu acho que cheguei a um ponto em que eu já tinha uma voz, depois de tantos anos de trabalho. E percebi que poderia usá-la para mais coisas, que podia fazer mais. Eu tenho uma filha. E acho que, como mãe de menina, a gente sente muito isso, né? Essa preocupação é ainda maior. Porque não é só pela gente, é também por uma filha que está crescendo e indo para um mundo que, muitas vezes, não trata bem as mulheres.
Quando a minha filha tinha 10 anos, eu comecei a pesquisar mais sobre esse assunto. Acho que foi nessa fase que passei a refletir mais sobre como o machismo e a violência contra as mulheres perpassam o nosso dia a dia. Às vezes, a gente nem percebe.
Mas, ao longo da vida inteira, a gente vive se esquivando de sofrer algum tipo de abuso, de ser maltratada, menosprezada, diminuída. Aprendemos a ficar sempre atenta, ligada nisso. Eu quis contribuir com esse debate, trazer esse assunto à tona. Porque, cada vez que a gente fala sobre isso, acaba libertando muita gente, sabe? Eu tinha até um receio, principalmente no primeiro livro, que tratava especificamente de violência sexual. E o retorno que recebo é ótimo. Me dizem que puderam aprender um pouco mais sobre aquilo que estão vivendo, entender o que dizem as nossas leis, conhecer histórias de outras mulheres que também passaram por isso e, principalmente, perceber que a culpa não é delas.
Se é violência sexual, questionam o que ela estava vestindo, com quem estava conversando, se bebeu ou não. Se é violência doméstica, perguntam o que ela fez, o que disse, o que teria provocado. E ainda perguntam por que ela não sai dessa situação, como se a culpa fosse dela por estar sendo agredida.
Então, acho que foi essa a busca: poder usar a voz que construí ao longo de tantos anos, ter esse espaço para levar uma mensagem que ajude a construir um futuro melhor para todas nós, especialmente para as nossas meninas.
Você teve receios de a repercussão dos seus livros sobre abuso sexual e violência doméstica afetaram, de alguma maneira, sua credibilidade com o público brasileiro, já que estes temas ainda são “tabus” para muitas mulheres e famílias?
Não tive nenhum receio. Nenhum mesmo. Até porque tenho um cuidado muito grande ao tratar desses temas. Acho que a mesma responsabilidade que tenho com o trabalho que faço diariamente há 30 anos eu tive, até de forma redobrada, nos livros, justamente por se tratar de um tema tão sensível. Isso é um livro de reportagem. O que faço é um trabalho de repórter.
Eu escuto as histórias, escuto inclusive alguns agressores, escuto especialistas no assunto, para traçar um retrato, um panorama. É como uma grande reportagem o que faço nos dois livros. Então, não tive receio nenhum.
Acho que esse tipo de receio não cabe muito quando a gente percebe que pode se posicionar a favor do que é justo, do que é correto, a favor de uma sociedade mais segura para todos nós.
Você fala bastante nos livros sobre juízes e até profissionais da saúde que acabam negligenciando estes assuntos, às vezes não sabendo acolher ou tomando decisões equivocadas. Não teve receio também neste sentido?
Não, não fiquei, não. Porque, voltando um pouco ao que eu tinha falado antes, tudo é muito amparado em casos, por exemplo, da Justiça.
Nesse segundo livro, há uma pesquisa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que aponta isso. Foram conselheiros que percorreram o país e observaram como, muitas vezes, a Justiça falha no atendimento e no acolhimento às vítimas de violência doméstica. Então, não sou só eu que estou dizendo, né? Falo com base em muitos dados, em muita pesquisa.
E isso acaba sendo também um alerta para os profissionais que lidam com mulheres vítimas de violência,tanto na área da Justiça quanto na polícia e nos hospitais. Ainda há pessoas que, por desconhecimento ou preconceito, acabam não oferecendo o mínimo de atendimento e acolhimento a que essas mulheres têm direito e de que precisam em um momento tão difícil.
Você está há 12 anos no Bom Dia, Brasil. Quais foram as mudanças ao longo deste tempo que impactaram seu dia a dia?
O jornal sempre foi muito dinâmico, né? Aquele jornal no horário da manhã, em que lidamos com o dia a dia, com as coisas que estão acontecendo: operações da polícia, fatos que aconteceram na madrugada.
A gente está sempre muito atento à notícia mais quente do dia. Embora também traga um resumo do que foi importante no dia anterior, a gente projeta muito o que vai ser relevante ao longo daquele dia e fica bastante focado no factual, no que está acontecendo naquele momento, oito da manhã, nove da manhã, que é quando as coisas começam a acontecer.
Agora vamos ter um cenário que combina mais com esse dinamismo, sabe? É um cenário que vai trazer a redação para dentro do estúdio, com a movimentação da nossa equipe em tempo real. Vamos usar a luz do dia, e é uma linguagem que se aproxima mais dos outros cenários da casa, que já têm esse estilo mais dinâmico. Teremos comentaristas ao meu lado, acompanhando também a previsão do tempo aqui perto.
E como as pessoas te recebem na rua? Você é muito parada? As pessoas comentam?
Sim, ainda mais aqui no Rio de Janeiro, porque antes do Bom Dia Brasil eu fiz durante muitos anos o jornal local, o RJ1. Então, eu sou bem conhecida aqui. Aqui no Rio de Janeiro as pessoas estão bem acostumadas também com pessoas que trabalham em televisão, com atores. Eu sempre volto, às vezes, pra casa com uma sugestão de pauta, com um pedido, um pedido de foto. Eu sempre sou tratada com muito carinho aqui nas ruas, graças a Deus.
Nesse tempo, qual cobertura, reportagem ou notícia foram mais marcantes para você?
Olha, sem dúvida, uma cobertura muito marcante foi a de 2024, as chuvas no Rio Grande do Sul. Aquela tragédia enorme que aconteceu por lá. Eu fui para lá para fazer a transmissão, apresentar o Bom Dia Brasil diretamente de lá durante um pouco mais de uma semana. E, ao longo do dia, também fazia matérias, reportagens, mostrando toda aquela situação, que era absolutamente catastrófica.
Um cenário de fim de mundo, assustador. Daquelas coberturas que fazem a gente pensar muito sobre para onde estamos caminhando, o que vai acontecer com o nosso planeta, com todos nós. Então, foi uma cobertura muito marcante.
Também pelo contato com as pessoas, que estavam extremamente sofridas, vivendo um momento muito difícil.
E, aqui no estúdio, teve também a cobertura do acidente da Chapecoense. A história começou a se desenrolar ali pela manhã. Foi durante o Bom Dia Brasil que fomos entendendo a gravidade do acidente, inclusive, com amigos nossos envolvidos, colegas da TV Globo que estavam no avião, ou profissionais da imprensa de outros veículos que conhecíamos. Foi muito triste, muito duro.
E, nas duas coberturas, tem isso que você mencionou: a emoção. A gente não deixa de se emocionar, claro. A gente se emociona, sofre, fica abalado. Às vezes as pessoas me perguntam: ‘Ah, é preciso ter sangue frio para lidar com esse tipo de notícia?’ Eu digo que é o contrário. Você precisa manter a sensibilidade, a capacidade de entender o que está acontecendo, de se emocionar, até de sofrer com as notícias, para fazer um bom trabalho. Você não pode ser indiferente.
Um dos momentos mais marcantes da sua carreira foi a cobertura da ocupação do Complexo do Alemão, em 2010, que trouxe um Emmy Internacional ao Brasil. No último ano, vimos que a operação falhou. Como você observa estes dois momentos?
Que era impossível entrar, que o Estado jamais conseguiria, que seria uma guerra enorme, uma carnificina. E o que aconteceu naquela tomada do Alemão foi que o poder público entrou sem nenhuma morte.
Não houve mortos na operação, nem entre as forças de segurança, nem entre os criminosos. Isso mostrou que o Estado, quando quer e se organiza, pode, sim, devolver essas áreas para a cidade, para os moradores, para as pessoas de bem das comunidades.
A partir dali começou o projeto das Unidades de Polícia Pacificadora, que foram implementadas em algumas comunidades do Rio. E eu sinto uma pena enorme de esse projeto ter se perdido, não ter seguido adiante, nem sequer ter se mantido nos lugares onde foi instalado. E, tristemente, noticiamos agora uma outra operação no mesmo local, no Alemão, desta vez, com uma carnificina, com inúmeros mortos.
Você dava aulas de piano aos 14 anos para ajudar os pais. Como foi a sua infância?
Eu comecei a estudar piano bem cedo, aos 8 anos de idade. Depois, a gente precisou começar a trabalhar cedo também, para ajudar a minha mãe. Meus pais se separaram quando eu ainda era muito nova, e ela ficou com a responsabilidade de cuidar dos três filhos.
Então, para ajudar em casa, meu irmão começou a trabalhar aos 16 anos, dando aula de informática, ele já era bom nisso e, hoje, é PhD na área. E eu comecei a dar aulas de piano, que era o que eu sabia fazer. E foi ótimo. Muito bom mesmo. Cheguei a me formar no conservatório e fiquei naquela dúvida: se fazia faculdade de música e seguia nessa área, ou se escolhia outro caminho.
Acabei optando por outra área, escolhi comunicação, e fiquei muito feliz com essa decisão. Foi uma escolha feita muito cedo.
Hoje, sua filha tem 20 anos. Como é sua relação com ela? E como neste tempo, você protegeu a privacidade dela?
Eu digo que tirei na loteria com a Melissa. Ela é incrível. Uma menina inteligente, linda, muito carinhosa. Nós somos muito grudadas, muito parceiras. Eu me divorciei do pai dela quando ela tinha 5 anos.
Minha família mora em Minas, então, desde então, fomos ficando ainda mais próximas. Sempre fomos muito grudadas e continuamos assim. Acho que vamos seguir desse jeito pela vida inteira.
Ela é extremamente discreta, muito reservada. Então, é até o contrário: eu não precisei me preocupar tanto com a privacidade dela. Às vezes, sou eu que tenho vontade de postar fotos com ela, porque tenho um orgulho enorme, mas ela prefere ficar mais na dela. E isso acaba funcionando como um filtro natural. Agora ela está com 20 anos, fazendo faculdade em Londres. E eu estou aqui morrendo de saudade.
E você está sempre ligada em tudo o tempo todo, como é sua rotina de cuidados mentais?
Quando eu saio de férias, eu procuro me desligar. Não consigo me desligar completamente. Mas eu me dou luxo nas férias de perder algumas coisas. De me desligar um pouquinho. Acho que é importante também. E até no dia a dia, ter esses momentos.
A música, atividade física, estar com amigos. A gente que é jornalista fica muito ligado o tempo todo no que está acontecendo. Mas é importante conseguir ter esses momentos para dar uma respirada.
Ana, pode falar um pouco sobre suas crenças espirituais?
Isso eu acho que me protege muito. E, de vez em quando, paro para meditar um pouquinho, para agradecer. Não tem a ver com religião, mas tem a ver com espiritualidade.
Eu sou muito grata. Eu tenho uma gratidão enorme por tudo que eu conquistei. A minha casa, que eu comprei com muito esforço, durante muitos anos.
Às vezes eu olho para trás, olho para ela e agradeço. Fico feliz, agradecida e orgulhosa do que eu conquistei. Às vezes eu olho para minha filha e tenho essa gratidão de ter uma filha incrível, que eu amo, que eu tenho um relacionamento maravilhoso.
Vejo amigos com saúde, amigos que estão em volta de mim, que estão ao meu lado. Esse sentimento de gratidão, eu exercito muito a minha espiritualidade através dele também.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1519, de 1 de maio de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.
