Cíntia Chagas: "Flerto com o feminismo, mas categorizar-me não vai ajudar em nada"
Anamaria

“Ensinar a norma dita culta é também um mecanismo de inclusão.” A frase sintetiza o posicionamento que levou Cíntia Chagas a se tornar um dos nomes mais conhecidos do ensino de português nas redes sociais. Formada em Letras pela UFMG, ela construiu uma carreira que transita entre educação, comunicação e entretenimento – agora ampliada com a presença na televisão, à frente do quadro Calma, Que Eu Te Explico, na Record.
A chegada à TV, segundo ela, representa a concretização de um objetivo antigo. Depois de anos dedicados ao ensino da língua portuguesa, cursos, livros e conteúdos digitais, o convite partiu da própria emissora e marca uma nova fase de sua vida.
Nos últimos anos, a trajetória da influenciadora também passou por momentos de exposição intensa fora do campo educacional. Após o fim de um relacionamento marcado por denúncias de violência doméstica, Cíntia passou a abordar temas ligados à experiência feminina e à vulnerabilidade. O livro A Dor Comum surge nesse contexto como uma tentativa de ampliar o debate sobre violências vividas por mulheres.
Você ganhou projeção dando dicas de português e já até escreveu livros sobre o tema. Agora, está na Record TV com o quadro “Calma, Que Eu Te Explico”. Pode nos falar sobre este reconhecimento – e de quem partiu a iniciativa?
Sempre quis estar na televisão, apresentando um programa. Ainda que não seja um programa, é um quadro importante em que a apresentadora serei eu; um sonho realizado. E justo, haja vista os consideráveis anos dedicados ao ensino de língua portuguesa, as inumeráveis críticas a mim miradas frente à exposição nas redes, entre outros muitos enfrentamentos. A iniciativa partiu da emissora, perante um desejo meu que não era segredo. E, ambiciosa como sou, espero outras iniciativas alvissareiras.
Muitos especialistas em línguas afirma que não existe um português “certo”. Estes profissionais defendem a existência das variedades linguísticas. Qual sua posição em relação a isto?
Eu, como especialista, também defendo a existência da variação linguística. Não se trata de defendê-la ou não. A diversidade linguística é fato. A postura que assumo, entretanto, é a de divulgar, a de ensinar aquela que tem prestígio nos ambientes elitizados, ora no campo socioeconômico, ora no campo educacional, ora no profissional. Ensinar a norma dita culta ou padrão não é, necessariamente, negar a existência das demais – as quais, por sinal, enriquecem a diversidade do país ao justamente refletir a pluralidade cultural brasileira, como bem dizia Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropófogo, de 1928.
Ensinar a gramática tradicional, divulgá-la, levantar a discussão sobre a importância de dominar esse registro, sobre como esse domínio abre, muitas vezes, portas raramente franqueadas àqueles que dela se distanciam. A norma dita culta é, assim, também um mecanismo de inclusão. Escolhi, diante disso, falar dela, ensinar sobre ela. A reflexão acerca da diversidade, a escola já a faz e assim deve continuar fazendo.
É importante por ser uma ferramenta inclusiva, que evita a ridicularização oriunda de um desvio da norma em determinados contextos sociais (trabalho, entrevistas de emprego etc), que traz credibilidade àquilo que se fala e a quem fala. Tal vereda mostrou-se a mim, quando constatei, trabalhando com língua portuguesa, uma dificuldade de domínio da variedade dita culta. Dificuldade penada por diferentes pessoas, de diferentes classes, inclusive, entre professores e outros profissionais.
Muito disso, a meu ver, deve-se a um ensino precarizado – e não digo aqui apenas do campo econômico que circunda os investimentos na educação brasileira, mas precarizado no sentido das práticas, das escolhas pedagógicas, ao se ensinar a língua. Ensino este muitas vezes limitado a regras desamarradas das necessidades do uso e das vivências dos estudantes.
Estou certa disso. A televisão aberta, conquanto as redes sociais protagonizem a relevância da comunicação contemporânea, nunca deixou de ser a verdadeira protagonista (junto ao rádio, mas essa é outra esfera de discussão), dado o alcance, mormente, nos espaços não apanhados, alcançados pela internet.
Você lançou o livro A Dor Comum, em coautoria com Manuela D’Ávila, que propõe uma reflexão sobre a violência contra as mulheres e sofrimentos pelos quais elas passam, independentemente do lado político. O que te motivou a escrever este livro?
O título do livro responde: a dor que é comum às mulheres. Passei alguns anos na ignorância relativa ao papel de subalternidade imposto à mulher pela sociedade machista. E nessa insciência falei despropósitos acerca de várias questões, muitas delas, ligadas ao movimento feminista. Então, publicizar essas ideias, também a partir do que vivi, é fazer coro ao discurso de muitas outras mulheres, muitos iguais, outros diferentes, porém, ligadas pelos mesmos riscos patriarcalmente construídos, validados e, aparentemente, intransponíveis. É ter um misto de responsabilidade e dívida com o meu lugar de mulher influente e com aquelas que, à frente de mim no letramento feminista, acolheram-me, cingiram-me.
Você sofreu uma violência doméstica recentemente, que se tornou pública. Pode nos contar sobre esse período da sua vida? E o que te motivou a denunciar e seguir em frente por justiça?
Muito do que podia falar está por aí, nas redes. Os caminhos se repetem, e o meu caminho e o de outras mulheres vítimas desse perfil masculino se entrecruzaram. É um grito ali, outro aqui, seguido de um “olha o que você me faz fazer”. Esse jogo de culpar a vítima. Outra manipulação dali; uma ferida de ego acolá. E nesse processo, eu vestia a carapuça da culpa, da errada, da burra, da que não sabe nada além de fazer vídeos na internet. Sobre sair disso, fui motivada pela consciência dos riscos que se apresentavam a mim, muitos trazidos à minha consciência por amigos, durante desabafos. Até chegar àquele momento humano da famosa gota-d’água.
O que é ser feminista para você? Você se considera feminista?
É um assunto sobre o qual tenho muito a aprender, a compreender, dada sua complexidade, pluralidade e importância. Para responder a essa pergunta, vou me inspirar em Angela Davis e Lygia Fagundes Telles. Na primeira, porque Davis defende uma visão interseccional, ou seja, uma luta pela libertação coletiva – ser feminista é agir ativamente para transformar estruturas injustas, não apenas reconhecê-las. Escolho essa visão por dialogar com o que vivi, o coletivo me acolheu, e falar sobre isso, expor, é uma forma de mexer nas estruturas.
A Lygia complementa essa visão a partir de sua obra que, em muitas passagens, reafirma a liberdade individual feminina, a autonomia sobre o próprio corpo, escolhas – inclusive, nos pequenos gestos e decisões da vida como em “Antes do Baile Verde”. Flerto com o feminismo, mas entendo que categorizar-me não vai ajudar em nada.
Pode nos falar sobre sua rotina de cuidados pessoais – em relação à saúde mental, cuidados de beleza e saúde física?
Sou vaidosa. Bebo muita água, uso protetor solar até para ficar em casa. Além disso, tenho uma alimentação nutritiva, saudável e recomendada por nutricionista. Pratico rotineiramente exercícios aeróbicos e musculação. Quanto à mente, faço terapia, divirto-me com amigos, bebo vinho, champanhe, leio, assisto a filmes. Tudo que me ajuda (e a qualquer um) a viver, sobreviver, experienciar as relações humanas nessa complexa sociedade.
Você é religiosa? Como é a sua relação com Deus?
Não diria religiosa, pois não sigo uma religião de forma efetiva. Mas considero-me católica, pela trajetória da infância, pelo contexto familiar. Analiso minha relação com Deus, com o divino, não como uma relação de conveniência, mas de fundamento. Estou com Ele em todos momentos, bons, difíceis. Sem espetáculo, mas numa relação de confiança sem fazer alardes.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1518, de 24 de abril de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.
