Morre aos 83 anos David José, o primeiro Pedrinho do 'Sítio do Picapau Amarelo'
Recreio

Morreu nesta segunda-feira, 6, ator, jornalista, escritor e historiador David José Lessa Mattos Silva, aos 83 anos. Para uma geração, ele sempre será o inesquecível Pedrinho da primeira adaptação televisiva do “Sítio do Pica-pau Amarelo” (TV Tupi, 1955-1959). Contudo, a trajetória de David José é muito mais rica: ele é um dos raros exemplos de um artista que se transformou em um profundo intelectual, dedicando-se a registrar e analisar o meio cultural que ajudou a fundar.
Seu caminho começou cedo, em 1954, com apenas 12 anos. Sua estreia se deu no seriado infanto-juvenil “As aventuras de Tom Sawyer”, mas foi no Sítio, adaptado pelo casal Júlio Gouveia e Tatiana Belinky, que ele brilhou como o neto de Dona Benta. A série, na pioneira TV Tupi, era feita ao vivo, exigindo um talento e disciplina incomuns para a época. David José, ao lado de Edy Cerri (Narizinho) e Lúcia Lambertini (Emília), marcou a infância da primeira geração que assistiu à televisão brasileira. Ele próprio confessou que, mesmo décadas depois, ainda se emocionava ao ser reconhecido na rua como o “Pedrinho”.
Do teatro de arena à sociologia francesa
A juventude de David José foi um caldeirão de experiências artísticas e políticas. Além da Tupi, ele atuou em outras novelas da TV Excelsior e, principalmente, no lendário Teatro de Arena de São Paulo (1964-1967). O Arena, berço da dramaturgia de resistência, marcou seu compromisso com a cultura nacional, trabalhando ao lado de nomes como Gianfrancesco Guarnieri e Lélia Abramo. Ele participou, por exemplo, do teleteatro especial “Minha Doce Turma” na TV Globo, reunindo muitos colegas do Arena.
Essa intensa vida artística, porém, não o impediu de buscar o conhecimento formal. Formado em Ciências Sociais pela USP, ele deu um passo ousado: partiu para a França com uma bolsa do governo. Lá, realizou sua licença em Sociologia na prestigiada Universidade de Paris VIII-Vincennes e, em seguida, o mestrado em Sociologia da Cultura na Universidade de Paris X-Nanterre. Nesse período, ele teve contato com a elite intelectual francesa e, apesar de ter atuado como locutor e jornalista no rádio europeu, um problema de paralisia facial dificultou seu retorno integral à atuação.
O historiador da mídia brasileira
David José Lessa Mattos não viu a dificuldade como um fim, mas como uma guinada. De volta ao Brasil, ele completou seu doutorado em História Social pela USP. Sua tese se transformou em um dos seus principais livros: O espetáculo da Cultura Paulista: Teatro e TV em São Paulo – 1940-1950.
Ele se tornou um dos maiores especialistas no estudo das origens da TV brasileira, focando na influência de instituições como o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), inaugurado em 1948, e a própria TV Tupi, de 1950, no desenvolvimento da nossa produção artística. Sua dedicação em preservar a memória da mídia o levou a organizar a série de livros Pioneiros do Rádio e da TV no Brasil, em dois volumes, que reúne entrevistas e depoimentos valiosos, e a ser pesquisador em projetos importantes, como a Ocupação Lima Duarte do Itaú Cultural.
O seu legado, de fato, é uma ponte perfeita entre a arte e o intelecto, entre a memória afetiva de um país que viu a TV nascer e o rigor acadêmico necessário para compreendê-la. Sua vida dupla — como ele gostava de definir, entre o palco e a universidade — é um testemunho da paixão pela cultura nacional em todas as suas formas.
David José deixa a esposa Lígia Todescan Lessa Mattos e os filhos Paulo e Luiz e os netos Pedro e Gabriela. A RECREIO presta condolências a todos os fãs, amigos e familiares.

