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Espécie de Inhotim dos EUA, museu Crystal Bridges inaugura expansão histórica
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Espécie de Inhotim dos EUA, museu Crystal Bridges inaugura expansão histórica

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Rota De Férias
08/06/2026 20h03
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Com ambientes ousados que remetem à proposta do Instituto Inhotim, em Brumadinho, o Crystal Bridges Museum of American Art, principal atração cultural de Bentonville, no Arkansas, acaba de entrar em uma nova fase. Em 6 de junho de 2026, o museu inaugurou oficialmente sua aguardada expansão, a maior desde a abertura do complexo, em 2011. O projeto acrescentou cerca de 10,6 mil metros quadrados ao campus e ampliou significativamente a capacidade expositiva da instituição criada por Alice Walton, herdeira da família fundadora do Walmart.

A partir das novas alas, houve uma reinvenção completa do complexo, uma vez que todas as galerias permanentes foram reorganizadas e espaços comunitários criativos, como oficinas e ambientes de reunião, passaram a integrar-se naturalmente ao espaço. Além disso, o percurso para quem visita o museu deixou de seguir uma ordem predominantemente cronológica para aproximar obras de diferentes períodos históricos por temas, movimentos artísticos e conexões visuais, criando uma narrativa mais dinâmica e moderna.

Com novas cores, instalações ao ar livre, áreas para crianças, ambientes imersivos e recursos tecnológicos que ajudam a contextualizar as obras, o Crystal Bridges Museum of American Art passou a lembrar ainda mais o aclamado projeto de Inhotim. Afinal, tal qual a instituição brasileirao, o museu americano fica em uma cidade deslocada dos grandes eixos turísticos, mas surpreende ao oferecer uma imersão cultural e sensorial que conecta arte, arquitetura e natureza em alto nível.

Nova galeria com teto móvel

Espécie de Inhotim dos EUA, museu Crystal Bridges inaugura expansão histórica Exposição Keith Haring in 3D, em nova galeria do museu | Paulo Basso Jr.

Logo no início da visita, uma apresentação audiovisual de aproximadamente oito minutos combina projeções em grande escala, recursos multimídia e obras reais do acervo para contar a história do Crystal Bridges. A partir daí, tem-se acesso a diversas galerias, inclusive uma nova voltada para exposições temporárias que tem cerca de 1.300 metros quadrados e é equipada com um sofisticado sistema de iluminação natural. O teto móvel permite controlar a entrada de luz ao longo do dia, adaptando as condições ideais para cada mostra e valorizando as obras sem comprometer sua preservação.

A estreia do espaço não poderia ser mais simbólica. A primeira exposição apresentada na nova galeria é Keith Haring in 3D, a maior mostra dedicada exclusivamente às obras tridimensionais do artista americano. Esculturas, máscaras, móveis, skates, desenhos, pinturas e objetos personalizados, como um carro, uma moto e uma guitarra, revelam uma faceta pouco conhecida de um dos maiores nomes da arte contemporânea. Destaque para o espaço em que, por meio de fitas cassetes, é possível ouvir músicas que agradavam a Keith, entre elas canções de Gal Costa.

Vale dizer ainda que a expansão do Crystal Bridges também trouxe novos estúdios para oficinas, áreas voltadas para programas educativos, espaços para eventos culturais, jardins redesenhados e ambientes pensados para famílias. Outro destaque é o novo café Quartz & Honey, concebido como um espaço de convivência integrado à natureza. Com amplas paredes de vidro e vista para os jardins, o ambiente reforça a proposta do museu de conectar arte, arquitetura e paisagismo em uma única experiência.

Como o Crystal Bridges colocou o Arkansas no mapa

Espécie de Inhotim dos EUA, museu Crystal Bridges inaugura expansão histórica A arquiteura é um dos destaques do Crystal Bridges | Paulo Basso Jr.

Quando foi inaugurado em 11 de novembro de 2011, o Crystal Bridges já nasceu cercado de expectativas. Erguido na pequena Bentonville, conhecida até então apenas por abrigar a sede mundial do Walmart, o museu representava uma aposta ousada: criar uma instituição de padrão internacional longe dos tradicionais centros culturais americanos.

O projeto foi idealizado por Alice Walton, filha do fundador da maior varejista do planeta. A proposta era democratizar o acesso à arte americana e criar um espaço capaz de atrair visitantes de todos os Estados Unidos. Quinze anos depois, o objetivo foi alcançado. Hoje, o Crystal Bridges é  uma das instituições culturais mais importantes do país e recebe turistas de todos os 50 estados americanos.

O nome do museu faz referência às pontes de vidro que conectam os edifícios construídos sobre lagos artificiais (a ponte mais nova, inaugurada após a expansão, conta com belíssimos vasos expostos, alémde abrigar o café Quartz & Honey). O projeto arquitetônico leva a assinatura de Moshe Safdie, responsável por obras icônicas como o Marina Bay Sands, em Singapura.

O grande destaque do espaço no Arkansas é que, em vez de dominar a paisagem, os pavilhões parecem emergir dela. Com isso, os edifícios de linhas sinuosas integram-se perfeitamente a bosques, trilhas (inclusive de bike) e espelhos d'água das montanhas Ozark, no maior estilo do mineiro Instituto Inhotim.

Obras ao ar livre

Espécie de Inhotim dos EUA, museu Crystal Bridges inaugura expansão histórica Maman, de Louise Bourgeois| Paulo Basso Jr.

Ao todo, o Crystal Bridges conta com mais de oito quilômetros de trilhas gratuitas, que atravessam áreas florestadas, lagos e jardins cuidadosamente integrados à paisagem das montanhas de Ozark. Ao longo dos caminhos surgem esculturas monumentais, pontes suspensas, áreas de contemplação e instalações artísticas espalhadas pela mata.

Entre os destaques está a Bachman-Wilson House, casa projetada em 1954 por Frank Lloyd Wright e originalmente construída em Nova Jersey. Após décadas sofrendo com enchentes, a residência foi cuidadosamente desmontada, transportada para o Arkansas e reconstruída dentro do complexo. Quem visita o local pode observar de perto conceitos que transformaram Wright em uma lenda da arquitetura, como a integração com a natureza, o uso extensivo de vidro e a sensação de continuidade entre ambientes internos e externos.

Outra obra popular nas trilhas ao redor do museu é Maman, uma monumental aranha de mais de nove metros de altura criada pela artista franco-americana Louise Bourgeois. Feita como uma homenagem à mãe da escultora, a obra impressiona pelas pernas finíssimas e pelos ovos de mármore escondidos sob o corpo.

Pertinho dela está LOVE, versão da icônica escultura criada por Robert Indiana, que se tornou um dos maiores símbolos da arte pop e ganhou fama mundial após sua instalação em cidades como Nova York. Com letras empilhadas e o característico “O” inclinado, a obra é um dos pontos mais fotografados do Crystal Bridges.

Já em um pequeno lago desponta Narcissus Garden, da japonesa Yayoi Kusama. A instalação reúne centenas de esferas metálicas espelhadas que flutuam sobre a água, refletindo a paisagem das montanhas Ozark e os próprios visitantes em uma das obras mais aclamadas do museu.

Acervo que atravessa cinco séculos da história americana

Espécie de Inhotim dos EUA, museu Crystal Bridges inaugura expansão histórica Acervo do museu conta com muitas obras de indígenas e mulheres | Paulo Basso Jr.

As galerias internas do Crystal Bridges também abrigam uma das coleções de arte americana mais importantes do país. O acervo reúne mais de 4.100 obras que percorrem cerca de cinco séculos da produção artística dos Estados Unidos e ajudam a contar a história do país por diferentes perspectivas.

Um dos diferenciais da instituição é a preocupação em apresentar uma visão mais ampla da arte americana. Para isso, o museu oferece uma presença significativamente maior de artistas mulheres, indígenas e representantes de grupos historicamente sub-representados do que a encontrada em muitos museus tradicionais do gênero. Essa diversidade se tornou ainda mais evidente após a reorganização das galerias promovida pela expansão de 2026.

A obra de US$ 35 milhões

Nenhuma obra do Crystal Bridges desperta tanta curiosidade, porém, quanto a Kindred Spirits, do pintor Asher B. Durand. Isso porque ela se confunde com a própria notoriedade do museu. Em 2005, Alice Walton adquiriu o quadro por cerca de US$ 35 milhões, valor recorde para uma pintura americana à época. A tela havia permanecido por mais de um século na Biblioteca Pública de Nova York e sua venda gerou intensa controvérsia.

Se por um lado a decisão provocou críticas, por outro revelou ao mundo a ambição do projeto que daria origem ao Crystal Bridges. Muitos especialistas consideram que foi justamente essa compra que colocou a instituição de Bentonville no mapa internacional das artes.

Hoje, o quadro continua sendo uma das maiores joias do museu. A pintura retrata os artistas Thomas Cole e William Cullen Bryant em meio à natureza selvagem do século 19 e simboliza perfeitamente a relação entre arte e paisagem que define a identidade do principal espaço cultural do Arkansas.

Retorno de clássicos

Espécie de Inhotim dos EUA, museu Crystal Bridges inaugura expansão histórica O híper-realismo de Man on a Bench, do escultor Duane Hanson | Paulo Basso Jr.

A nova expansão do Crystal Bridges permitiu que centenas de obras antes guardadas em reservas técnicas passassem a ser exibidas. Entre as novidades estão trabalhos recém-incorporados ao acervo e peças que o público não tinha oportunidade de ver há anos.

Hanson ficou conhecido justamente por criar modelos tão realistas que são capazes de confundir público, e a obra se tornou uma das favoritas dos visitantes desde a inauguração do museu. Com a renovação das galerias, ela voltou a ocupar posição de destaque bem no início do percurso pelo Crystal Bridges .

Quem também retornou após um período de portas fechadas foi a instalação Infinity Mirrored Room — My Heart Is Dancing into the Universe, de Yayoi Kusama. Agora em novo local, porém com circuito semelhante ao anterior, o ambiente usa espelhos e globos com pontos luminosos para criar a sensação de um universo infinito. Não à toa, é um dos locais mais populares do museu.

Entrada gratuita graças ao Walmart

Espécie de Inhotim dos EUA, museu Crystal Bridges inaugura expansão histórica Infinity Mirrored Room — My Heart Is Dancing into the Universe, de Yayoi Kusama | Paulo Basso Jr.

Uma das características mais surpreendentes do Crystal Bridges é que a entrada para sua coleção permanente é gratuita desde a inauguração. Enquanto museus de porte semelhante costumam cobrar valores elevados, qualquer visitante pode explorar grande parte do acervo sem pagar ingresso. Apenas algumas exposições especiais temporárias exigem bilhete separado, como a Keith Haring in 3D, mas ainda assim os valores raramente passam de US$ 10.

A política de entradas é resultado direto da visão de Alice Walton e do apoio financeiro da família responsável pela criação do Walmart. O museu opera como uma instituição sem fins lucrativos e tem como missão tornar a arte acessível ao maior número possível de pessoas. Essa política ajudou a popularizar o Crystal Bridges e permitiu que milhões de visitantes tivessem contato com obras que normalmente estariam restritas aos grandes centros culturais do país.

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