Que fim levou a Blockbuster, a antiga rainha das videolocadoras?
Tecmundo

Atualmente estamos a poucos cliques de distância de filmes e séries em serviços de streaming, mas a situação décadas atrás era bem diferente. As opções de acompanhar lançamentos na televisão ou nos cinemas eram menores em quantidade e uma das experiências mais lembradas por quem viveu esse período foi o das videolocadoras.
Ir a um desses estabelecimentos e escolher filmes para alugar em meio a um oceano de opções era praticamente um ritual para muitas pessoas — e uma rede em especial se destacou ao longo de vários anos pelo domínio de mercado, lado a lado com locadoras de bairro. É a Blockbuster, hoje um nome quase esquecido.
Antes referência no setor do entretenimento, a empresa tem a derrocada ligada a uma mudança de mercado e, principalmente, na dificuldade em se atualizar e acompanhar uma indústria que começava a deixar de lado a mídia física, mesmo tendo condições de se adaptar e sobreviver.
A consolidação da Blockbuster
Muito antes de virar uma gigante, a Blockbuster Video nasceu em 1985 como uma simples locadora de fitas VHS. Fundada pelo empresário David Cook, que fez dinheiro no setor de gerenciamento de dados para companhias de petróleo, a pimeira unidade foi inaugurada em Dallas, no estado norte-americano do Texas.
O nome deriva da expressão blockbuster, ou arrasa-quarteirão, dado a filmes de sucesso que geram até filas nas salas de cinema. A identidade nas cores azul e amarela foi marcante e já existia desde a loja inicial.
Unidades foram surgindo em países da Europa, Ásia, Oceania e América Latina, incluindo o Brasil. No auge, ela chegou a ter mais de 9 mil unidades abertas em todo o mundo, com 65 milhões de clientes cadastrados e um valor de mercado de US$ 3 bilhões.
A migração do VHS para o DVD não foi sentida pela companhia, que seguiu oferecendo os dois formatos para o público — assim como games e o Blu-ray anos depois. Parte da renda seguiu de uma fonte curiosa: as taxas de atraso de clientes, que devolviam os alugueis depois da data combinada e eram multados.
Uma franquia de erros
Ainda com muito fôlego, a Blockbuster considerou no começo dos anos 2000 adquirir por US$ 50 milhões uma startup cheia de potencial, que alugava DVDs por correspondência e começava a se destacar. Ela optou por não fazer uma oferta e, anos depois, o preço cobrado seria caro: a marca era nada menos que a Netflix, ainda longe de virar referência no streaming.
A partir desse ponto, que poderia ter feito a Blockbuster se manter no topo até hoje, sucessivos erros fizeram a gigante perder cada vez mais valor de mercado — a ponto de encolher 75% em 2005 em comparação com o ano anterior, que foi o seu recorde de faturamento.
A empresa começou a sofrer pressão das produtoras e lojas, que vendiam DVDs mais baratos e reduziram o aluguel. Além disso, o modelo online de envio rápido e sem taxa de atraso se popularizou em especial nos EUA, tirando parte do seu público.
Internamente, dívidas deixadas por donos anteriores, em especial a Viacom (que separou a divisão em 2004) prejudicaram a saúde financeira da companhia. Esse foi um dos motivos que impediu a Blockbuster de fechar um acordo com a Google, empolgada com streaming depois de comprar o YouTube e interessada em uma parceria.
Nem mesmo a chegada da tardia da Blockbuster Online em 2004, que permitia o aluguel pela internet, foi o suficiente. Locadoras presenciais foram aos poucos vistas como coisa do passado — e a própria Netflix lançou o seu streaming três anos depois, virando líder até hoje no setor.
Ainda existe a Blockbuster?
Em 23 de setembro de 2010, uma Blockbuster afundada em dívidas e já com várias unidades fechadas ao redor do mundo declarou falência nos Estados Unidos. A Dish Network comprou os ativos US$ 320 milhões em um leilão, mas o plano de reestruturação não deu certo e as unidades começaram a fechar ainda mais rapidamente.
No Brasil, o final foi antecipado: a gigante do varejo Americanas comprou as operações nacionais da Blockbuster em 2007, mas também deixou de usar o nome com o passar do tempo e transformou a maioria das unidades em lojas próprias.
Desde 2019, apenas uma Blockbuster permanece aberta no mundo e sem planos para fechar. É uma unidade na pequena cidade de Bend, no Oregon, administrada via licenciamento de marca e de forma independente pelo casal Ken e Debbie Tisher.
Hoje, além de poucos e fiéis clientes, ela consegue a renda não de filmes, mas de produtos de merchandising relacionados com a marca, como camisetas e canecas. O local virou até uma espécie de ponto turístico, por ser uma lembrança de um período da indústria.
Enquanto uma só unidade segue resistindo, em 2022 a Netflix lançou uma série de comédia chamada Blockbuster, que fazia piada com a rede de lojas — mas foi ela mesma um fiasco de audiência e crítica. Um ano depois, ela encerrou o serviço de aluguel de DVDs por correspondência, colocando um ponto final em uma rivalidade que poderia ter sido muito diferente caso a compra do começo dos anos 2000 fosse aprovada.
