Assédio no BBB 26 expõe efeitos da superexposição sobre vítimas, dizem psicólogos
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O caso envolvendo o participante Pedro, investigado por importunação sexual após tentar beijar Jordana sem consentimento no BBB 26, trouxe à tona um tema que vai além do entretenimento: o impacto psicológico e social do assédio e da violência de gênero quando tudo acontece sob intensa exposição pública. A repercussão do episódio, amplificada por redes sociais, portais de notícias e discussões em tempo real, evidencia como situações desse tipo podem se transformar em um gatilho coletivo e, principalmente, em um evento traumático ainda mais complexo para quem vive a experiência.
Para Guilherme Cavalcanti, psicólogo da SegMedic, rede de clínicas ambulatoriais do Rio de Janeiro, casos como esse podem ser compreendidos como um trauma psicológico que afeta diretamente a saúde mental da vítima. “A pessoa pode desenvolver ansiedade, depressão e, em alguns casos, até pensamentos suicidas”, explica. Segundo ele, isso acontece porque a vítima pode se sentir invadida, isolada, envergonhada e até culpada – sentimentos que frequentemente dificultam a busca por apoio e tornam o processo de recuperação mais delicado.
O psicólogo destaca que a superexposição funciona como um fator agravante. Muitas pessoas que passam por situações de assédio tendem a guardar o episódio para si, por medo, vergonha ou culpa. Quando o caso se torna público, especialmente em um ambiente de grande visibilidade, a vítima pode ficar ainda mais vulnerável a ataques, julgamentos e críticas, o que intensifica o sofrimento emocional e pode dificultar a elaboração do trauma.
Ao mesmo tempo, Cavalcanti ressalta que a exposição pode ter outro efeito, dependendo de um ponto central: o consentimento. Quando a história é compartilhada com autonomia e decisão da vítima, falar sobre o assunto pode ser também um ato de coragem e empoderamento, capaz de quebrar o silêncio, reduzir estigmas e criar um senso de pertencimento. “Isso pode ajudar outras pessoas que estejam passando pela mesma situação, criando uma rede de apoio e solidariedade”, pontua.
Sabrina Bezerra, psicóloga, neuropsicóloga e diretora geral da Flora Insights, startup pioneira e especializada em diagnóstico e gestão de riscos psicossociais ocupacionais, reforça que episódios de assédio em ambientes de alta visibilidade carregam uma camada adicional de impacto: a transformação da violência em um debate público contínuo, marcado por interpretações, julgamentos e reações que nem sempre respeitam o tempo emocional e a experiência de quem viveu o episódio. “A forma como o reality é construído permite enxergar um retrato de algo que acontece em diferentes ambientes e de diversas maneiras”, afirma.
Segundo ela, quando se observa o fenômeno sob essa perspectiva, o assédio deixa de ser apenas uma experiência individual e passa a se revelar como um fenômeno social, que expõe padrões de poder e a naturalização da ultrapassagem de limites. Sabrina alerta que a hiperexposição de situações de risco, algo que também pode ser observado em outros contextos, como tentativas de suicídio, não atua como fator de proteção. Pelo contrário. Amplifica os danos emocionais e pode abrir brechas para comportamentos de repetição. “Hoje, inclusive, não há uma cobertura midiática sobre casos de suicídio justamente porque esse tipo de exposição deixa de ser protetiva e passa a funcionar como pulverização de informação e de métodos”, conclui.
Nesse sentido, ela ressalta que falar sobre o episódio não significa dar audiência ao reality show, mas analisar a capacidade da sociedade de nomear e apontar aquilo que é evidente e refletir sobre quantas situações semelhantes, quando não são explícitas, acabam sendo negligenciadas.
Mais do que um episódio isolado, o caso do BBB 26 evidencia um cenário que se repete em diferentes escalas: quando há assédio e violência de gênero, a discussão pública pode tanto ampliar o dano quanto contribuir para conscientização e mudança cultural. O que define esse limite é a forma como a sociedade reage e, principalmente, se a vítima é respeitada, acolhida e protegida em sua autonomia.

