Espiritismo Líquido
Anamaria

Espiritismo Líquido
A fragilidade das relações interpessoais que se desenvolvem na pós-modernidade
O Sociólogo polonês Sygmunt Bauman, na obra “Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos”, traça um panorama da sociedade atual, cujas posturas estão caracterizadas pela falta de solidez, calidez e por uma tendência a serem cada vez mais fugazes, superficiais, etéreas e com menor compromisso.
O próprio autor segue adiante com outras obras, mas atentando para o mesmo fenômeno: imediatismo, consumismo e fragilidade no comportamento humano que busca, cada vez mais, respostas e soluções rápidas, porém sem contrapartida de crescimento moral ou mesmo intelectual.
Uma construção complexa sem a devida cautela com os alicerces que certamente tende a ruir um curto ou médio prazo.
Faço uma alusão à obra de Bauman, pois estamos observando o mesmo fenômeno na militância espírita, ou melhor, em setores do Movimento que, lançando mão do alcance das redes sociais, passaram a criticar a postura de dirigentes espíritas que defendem a importância do esclarecimento por meio do estudo, não desprezando, mas dando caráter subsidiário às práticas mediúnicas em geral.
São usados argumentos como a aparente evasão das Casas Espíritas apontada pelo IBGE e a cada vez menor presença de jovens nas reuniões para indicar a necessidade de mudanças na forma e, em alguns casos, no conteúdo, questionando a própria Codificação de Kardec, tratando-a como anacrônica e inspirada por espíritos eivados das mesmas dificuldades morais que nós outros.
O debate é muito complexo, mas quero deixar bem claro que vejo nessas pessoas, uma espécie de “neosofistas”, pois inteligentes e preparados, partem de argumentos questionáveis para chegar a conclusões que interessam aos propósitos assumidos, alguns com clara conotação ideológica.
Sabemos que os fenômenos mediúnicos existem, são importantes ferramentas de instrução e consolo, mas não são um fim em si.
A verdadeira libertação vem do conhecimento, como já repetido por Sócrates em alusão aos escritos no Oráculo de Delfos: “conhece-te a ti mesmo”.
Dá mais trabalho, demora mais, mas só a razão promove mudanças consistentes.
Divulgamos aos quatro cantos que a solução para os problemas de uma nação é o investimento em educação, mas quando o assunto é religião, não é necessário educar. Basta consolar.
O verdadeiro consolo é produto de um convencimento racional e não se obtém com um tapinha nas costas, importante e necessário em determinado momento, mas insuficiente a longo prazo.
Quando eu era pequeno e perguntava ao meu pai o significado de alguma palavra difícil, que eu não conhecia, ele me pedia para pesquisar no dicionário.
Eu ficava contrariado, mas hoje agradeço e atribuo a isso boa parte do meu modesto conhecimento.
Há séculos repetimos que o importante é ensinar a pescar e não dar o peixe. O que mudou?
Não ao espiritismo líquido!
Sem arrogância, prepotência ou qualquer forma de intimidar os mais simples, precisamos conscientizar a todos que nos procuram que, como descrito no Evangelho de João: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.
“Espíritas, amai-vos, o primeiro mandamento. Instruí-vos, o segundo”.
Edson Sardano
