Fim das comissões em salões de beleza amplia debate sobre saúde mental e bem-estar no trabalho
Anamaria

Em um setor que historicamente combina longas jornadas, alta demanda por produtividade e instabilidade financeira, mudanças na forma de remuneração começam a ganhar relevância no debate sobre saúde mental e bem-estar. Nos salões de beleza brasileiros, o tradicional modelo de comissões baseado no repasse de uma porcentagem por serviço realizado passa a ser questionado por seus impactos emocionais e organizacionais.
A discussão ganhou força a partir da proposta liderada pela empresária Rafaela de la Lastra, que é especialista no setor, e que desenvolveu um sistema de gestão que substitui as comissões por um modelo de locação de estações de trabalho. A iniciativa surge em um contexto mais amplo de revisão das relações profissionais, especialmente após a pandemia, que evidenciou fragilidades estruturais em diferentes setores da economia.

Pressão constante e impactos na saúde emocional
O modelo de comissões sempre foi considerado padrão no setor da beleza, mas especialistas e profissionais apontam que ele pode contribuir para um ambiente de trabalho marcado por pressão constante. A necessidade de atender mais clientes para garantir renda, somada à falta de previsibilidade financeira, tende a gerar ansiedade, insegurança e desgaste emocional.
Além disso, a lógica de remuneração variável pode estimular a competitividade entre profissionais que compartilham o mesmo espaço, criando conflitos internos e dificultando a construção de um ambiente colaborativo. Em muitos casos, a ausência de clareza sobre ganhos e repasses também contribui para tensões entre equipes e gestão.
Segundo Rafaela de la Lastra, foi justamente a repetição desses problemas em diferentes salões que motivou a criação de um novo modelo. A pandemia de Covid-19 funcionou como ponto de inflexão, ao expor a vulnerabilidade financeira tanto de profissionais quanto de empresários, reforçando a necessidade de estruturas mais sustentáveis.
Proposta busca equilíbrio e previsibilidade
O Sistema Autentis propõe uma mudança estrutural na forma de organização do trabalho. Em vez de receber comissões, os profissionais passam a pagar um valor fixo mensal para utilizar a estrutura do salão, incluindo cadeiras, equipamentos e espaço físico. Dessa forma, cada profissional assume o controle direto de sua agenda, faturamento e gestão financeira.
A proposta, segundo a idealizadora, contribui para reduzir a pressão por resultados imediatos e cria um ambiente mais previsível. Para os proprietários dos salões, o modelo também oferece maior estabilidade de receita ao longo do ano, além de simplificar processos administrativos.
Outro ponto central é a mudança na dinâmica entre os profissionais. Ao reduzir a dependência de comissões, o modelo tende a diminuir a competitividade interna e incentivar a colaboração, criando um ambiente mais equilibrado do ponto de vista emocional.
Ambiente mais leve reflete no atendimento
A relação entre ambiente de trabalho e qualidade do atendimento é um dos aspectos mais destacados por profissionais que adotaram o novo modelo. A cabeleireira Thalita Abreu, que atua no Mato Grosso do Sul, relata que percebeu mudanças significativas após a transição.
Segundo ela, a redução do estresse interno e a maior autonomia contribuíram para um ambiente mais leve, o que impacta diretamente a experiência dos clientes. Em um setor baseado em relações interpessoais, o estado emocional dos profissionais influencia não apenas o clima do espaço, mas também a percepção de qualidade do serviço.
Além disso, a simplificação da gestão administrativa reduz a sobrecarga operacional, permitindo que os profissionais concentrem mais energia na execução do trabalho e no cuidado com os clientes.
Saúde mental entra na pauta da gestão
A discussão sobre saúde mental tem ganhado espaço crescente no setor da beleza, tradicionalmente focado em técnicas e tendências estéticas. A mudança de modelo proposta por Rafaela de la Lastra insere o bem-estar como elemento central na gestão dos negócios.
A abordagem inclui a relação entre estrutura de trabalho, equilíbrio emocional e sustentabilidade do negócio. Esse movimento acompanha uma tendência mais ampla do mercado, em que empresas de diferentes segmentos passam a considerar a saúde mental como fator estratégico, e não apenas individual.
Transformação estrutural e qualidade de vida
A revisão do modelo de comissões no setor de beleza reflete mudanças mais profundas nas relações de trabalho contemporâneas. A busca por autonomia, previsibilidade e melhores condições emocionais tem influenciado profissionais a repensarem suas formas de atuação.
Em um segmento que depende diretamente do contato humano, o bem-estar dos trabalhadores se torna essencial não apenas para a produtividade, mas também para a qualidade do serviço prestado. Ambientes mais saudáveis tendem a favorecer relações mais positivas, tanto entre equipes quanto com clientes.
A proposta de substituir comissões por um modelo mais estável e colaborativo ainda está em expansão, mas já aponta para uma transformação relevante. Ao conectar gestão financeira e saúde mental, o debate indica que o futuro do setor pode estar menos centrado em metas imediatas e mais orientado à sustentabilidade do trabalho e à qualidade de vida.
