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Maltratar animais revela desvio de caráter; entenda
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Maltratar animais revela desvio de caráter; entenda

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Anamaria
01/03/2026 21h00
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A morte do cãozinho Orelha, brutalmente agredido por um grupo de adolescentes em Santa Catarina, provocou comoção nacional e levantou um debate que vai além da indignação momentânea: o que leva uma pessoa a cometer atos de extrema violência contra um ser indefeso?

Mais do que um episódio isolado, a neurocientista e especialista em desenvolvimento infantil Telma Abrahão, aponta que situações como essa revelam falhas profundas na formação emocional de crianças e adolescentes, especialmente no aprendizado da empatia, do respeito à vida e da noção de limite. E fica a questão: como nós, como pais, podemos evitar isso? 

O caso

O caso veio à tona após moradores encontrarem Orelha gravemente ferido. Exames indicaram que o cachorro, de cerca de 10 anos, havia sido atingido na cabeça por um objeto sólido. Diante da gravidade das lesões, o animal precisou ser submetido à eutanásia. As investigações da Polícia Civil de Santa Catarina identificaram quatro adolescentes suspeitos de envolvimento nas agressões. Além disso, familiares dos jovens passaram a ser investigados por suposta coação de testemunhas. 

Violência contra animais é desvio de caráter?

Segundo Telma, a crueldade extrema não pode ser tratada como algo que surge de forma espontânea ou desconectada da história emocional do indivíduo. “Precisamos olhar para além do crime e enxergar o vazio emocional que ele revela”, afirma.

A neurociência mostra que a empatia não é uma característica inata. Ela é construída ao longo da infância e da adolescência, por meio de vínculos afetivos, exemplos cotidianos e limites claros. “A capacidade de sentir a dor do outro, humana ou animal, não nasce pronta. Ela é ensinada, regada diariamente pelo vínculo, pelo exemplo e, principalmente, pelos limites. Quando um adolescente é capaz de torturar um ser indefeso, isso aponta para uma falha grave nesse processo”, explica.

“A empatia não é apenas ensinada: ela é modulada, fortalecida ou inibida. Crianças e adolescentes com vulnerabilidades neuroemocionais, inclusive, precisam de ainda mais contenção, limites claros e intervenção precoce”, alerta Mariana Ruske, pedagoga e fundadora da Senses Montessori School. Segundo ela, há famílias presentes e afetivas que, ainda assim, não reconhecem sinais de alerta importantes, sobretudo quando a violência não é direcionada a humanos. Ignorar crueldade com animais, relativizar comportamentos agressivos ou tratá-los como “fase” pode ser tão prejudicial quanto a negligência explícita.

A importância dos limites na formação emocional

Um dos pontos centrais levantados pela especialista é a confusão frequente entre liberdade e ausência de limites. Para Telma, evitar frustração e não impor regras para crianças e adolescentes não é sinal de amor, mas de omissão. “A falta de limites não é liberdade, é abandono moral. Quando não ensinamos uma criança a respeitar um animal, estamos falhando em ensiná-la a respeitar um ser humano”, diz.

Na prática, isso significa que o desenvolvimento emocional saudável passa pela capacidade de lidar com frustrações, entender consequências e reconhecer o valor da vida, mesmo quando ela não oferece retorno ou vantagem pessoal.

Casos como o de Orelha não são episódios isolados

Telma alerta que a violência é fruto de um processo longo e silencioso. “Esses jovens não brotaram do nada. Eles são frutos de uma cultura que evita o ‘não’, que transforma a dor do outro em entretenimento e que se omite diante da formação do caráter. A violência começa no silêncio da omissão”, pontua.

Nesse contexto, a família ocupa um papel central. É no cotidiano, nas pequenas interações e escolhas, que valores como empatia, respeito e responsabilidade são ensinados ou negligenciados.

O que os pais podem fazer para evitar esse tipo de comportamento

“A base da saúde mental e do caráter se forma no dia a dia: na presença, no exemplo, no amor e em limites respeitosos que ensinam que toda vida é sagrada. Uma criança que não aprende a sentir a dor de um animal dificilmente honrará a vida de um ser humano”, reforça Telma.

A especialista reforça que a educação emocional começa cedo e se constrói no dia a dia. Algumas atitudes são fundamentais nesse processo:

  • Ensinar, desde a infância, que animais sentem dor, medo e sofrimento;
  • Não naturalizar comportamentos agressivos, mesmo quando parecem brincadeira;
  • Impor limites claros, explicando o porquê das regras;
  • Dar o exemplo, demonstrando respeito em atitudes cotidianas;
  • Incentivar conversas sobre sentimentos, consequências e responsabilidade.

A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1507, de 6 de fevereiro de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.

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