O que estamos ensinando aos meninos — e como isso pode moldar o futuro das mulheres?
Anamaria

Quando surge mais uma notícia sobre abuso, feminicídio ou violência contra mulheres, a reação imediata costuma ser de indignação. Mas, depois do choque inicial, uma pergunta difícil permanece: de onde vem esse homem? Que tipo de educação ele recebeu? O que ouviu durante a infância? Como aprendeu a lidar com frustração, rejeição, emoções e limites? Cresceu em um ambiente onde respeito e empatia eram valores praticados ou onde agressividade e controle eram naturalizados?
Essas perguntas não buscam justificar crimes, mas tentar compreender como a sociedade forma meninos que, no futuro, podem reproduzir comportamentos de desrespeito ou violência. Afinal, o problema não surge de um dia para o outro, e especialistas apontam que muitas das bases das relações de poder entre homens e mulheres começam a ser construídas ainda na infância, em pequenas mensagens cotidianas, no que é permitido aos meninos, no que é tolerado como “coisa de menino”, nas emoções que eles aprendem ou nas que são impedidos de expressar.
Tatiana Renna, que é mãe de dois homens, Bruno e Gustavo, de 18 e 22 anos, conta que sempre conversou com eles sobre respeito e convivência. “Por ter meninos, posso afirmar que as brincadeiras sempre foram mais intensas, mais radicais, em relação às de meninas e, também por isso, sempre falamos sobre a importância do respeito ao espaço físico do próximo, sobre limites. Então, quando alguma brincadeira dava mais conflito, entre eles ou com algum grupo de amigos, a gente chamava a atenção para como o outro estava se sentindo e também sobre como estariam caso a situação tivesse acontecido com eles. Mais especificamente sobre meninas, sempre considerei importante passar que elas poderiam ocupar os mesmos espaços, ter as mesmas profissões e, enquanto eram crianças, brincar das mesmas coisas que eles. Além disso, que era preciso se colocar no lugar delas em situações que envolvesse algum comentário ou piada de mau gosto; e respeitar limites, não apenas em relação ao corpo delas quando brincavam ou mais tarde nos namoros, mas também sobre opiniões”, diz.
Na foto Bruno Ghilardi, Edgard Ghilardi Jr, João Gabriel Aranha (afilhado), Gustavo Ghilardi e Tatiana Renna Ensinar sobre empatia e respeito na primeira infância pode, sim, ser uma estratégia de prevenção. Para o psiquiatra Guido Boabaid May, a educação emocional pode ser considerada uma estratégia de saúde pública. “Devemos ensinar desde cedo a nomeação e a regulação de emoções, a importância do consentimento (“posso abraçar fulana?” etc), o respeito ao corpo do outro, equidade de gênero e, sobretudo, reparar erros quando forem cometidos. Esses elementos constroem desde cedo maior capacidade de vínculo, empatia e autocontrole”, avalia.
Na coluna de hoje, vamos além do episódio que chocou todo o país na última semana, quando uma menina sofreu estupro coletivo em um apartamento em Copacabana. Vamos conversar com mães e especialistas no assunto para entender onde o problema começa e como é possível mudar o futuro.
Quando o limite não acontece
“Eu fiquei em verdadeiro pânico ao ler sobre a notícia de que uma adolescente, como a minha filha, passou por um estupro coletivo. Não tem como não fazer uma associação direta tendo uma filha da mesma idade. A gente pensa: será que falta eu fazer ou falar algo pra afastar uma hipótese dessa? Nós, mães de meninas, normalmente orientamos, fazemos a nossa parte. Mas como controlar a mente do outro?”, questiona Bartira Betini, mãe de Sofia, de 17 anos.
O questionamento de Bartira talvez seja o que mais apavora as mães, especialmente das meninas. Afinal, os casos de violência de gênero continuam crescendo e os números de feminicídio seguem alarmando o país. Para Ninfa Parreiras, que é psicanalista, psicóloga e autora de obras literárias para a infância, a sociedade começa a ensinar aos meninos que agressividade é aceitável ou esperada já a partir da infância, nas primeiras brincadeiras e nos brinquedos oferecidos aos meninos. “São incentivadas brincadeiras que mostram a força, a potência dos homens. E também nas comparações entre meninas e meninos. Quando o corpo da menina vira objeto e não sujeito. Nos exemplos oferecidos por pais, padrastos, tios, irmãos, mães, madrastas, tias, irmãs, avós… somos cúmplices dessa tradição machista e misógina. Precisamos sair do conforto e denunciar, falar, recusar padrões preconceituosos, reprovar piadas e comentários depreciativos. As crianças podem aprender a consertar as coisas que quebram, sem minimizar que meninas não conseguiriam. Questionar a linguagem do dia a dia, os chistes, os rótulos etc. Na linguagem, moram nossas crenças, nossas fraquezas. Desde a primeira infância, devemos mostrar que é inaceitável a agressividade”, pontua.
Filipe Colombini, que é psicólogo parental, levanta um ponto importante: o menino cresce observando as relações dentro de casa e, principalmente, a figura do pai ou de outras referências masculinas. “Mesmo quando não existe uma orientação explícita, a criança aprende a partir do que vê. Na psicologia comportamental, chamamos isso de modelação: o comportamento do adulto funciona como modelo e tende a ser imitado. Por isso, muitas vezes, o aprendizado não acontece apenas por aquilo que é dito, mas pelo que é vivido no cotidiano. A criança observa como os adultos reagem, como lidam com conflitos, como tratam mulheres e como expressam frustração. Aquilo que é tolerado ou validado acaba sendo aprendido”, exemplifica.
Outro ponto importante que Colombini aborda é a incoerência que muitas vezes aparece entre discurso e prática. “Fala-se sobre respeito e controle emocional, mas certos comportamentos agressivos de meninos são tolerados ou até naturalizados, enquanto comportamentos semelhantes em meninas tendem a ser mais rapidamente corrigidos. Essa diferença de tratamento também comunica regras sociais implícitas sobre o que é esperado de cada gênero”, avalia. Além do ambiente familiar, diz, existe ainda a influência cultural mais ampla. “A mídia e os produtos direcionados ao público infantil frequentemente apresentam narrativas centradas em confronto, vingança e violência. Em muitos desenhos e histórias, heróis e vilões resolvem conflitos pela força, com cenas de luta e agressividade que acabam sendo normalizadas. Esse tipo de conteúdo faz parte do ambiente em que a criança cresce e contribui para moldar referências sobre como lidar com conflitos. No fim, a criança não aprende apenas com aquilo que escuta. Ela aprende, sobretudo, com aquilo que observa sendo feito e validado pelas pessoas e pelos contextos que fazem parte do seu cotidiano”, complementa.
É preciso falar, também, como falas tipo “menino é assim mesmo” acabam legitimando desrespeito a limites físicos (como o corpo de terceiros e também patrimônio), menor responsabilização por atitudes agressivas, minimização de comportamentos invasivos e naturalização de condutas de domínio ou de humilhação. “Quando normalizamos pequenos desrespeitos, estamos ensinando que o limite do outro é negociável e isso pode vir a banalizar desrespeitos ainda maiores e potencialmente graves”, avalia Guido. Para Sara Maria de Souza, psicóloga e gerente de projetos do Instituto Ficar de Bem, esse tipo de frase acaba legitimando comportamentos como desrespeito, invasão de espaço, impulsividade excessiva e até pequenas agressões físicas ou verbais. “Quando essas atitudes não são corrigidas, a criança pode internalizar que não há consequências para seus atos. A naturalização desses comportamentos enfraquece a construção de limites e pode dificultar o desenvolvimento da responsabilidade emocional e social”, pondera. Para Filipe, frases assim acabam funcionando como uma forma de naturalização de determinados comportamentos. “Quando esse tipo de ideia se repete, cria-se uma padronização: certos comportamentos passam a ser considerados aceitáveis para meninos e não para meninas, e vice-versa. Aos poucos, isso vai produzindo julgamentos morais sobre o que seria um comportamento “de homem” ou “de mulher””, exemplifica.
Além disso, Sara chama a atenção para a dificuldade de muitos homens em lidar com frustração e rejeição e como isso pode ter relação com a forma como foram educados quando crianças. “Quando meninos são criados sem aprender a reconhecer e elaborar emoções como tristeza, frustração ou rejeição, podem desenvolver dificuldades em lidar com limites na vida adulta. Se desde cedo não aprendem que o “não” faz parte das relações e que sentimentos precisam ser trabalhados, podem interpretar frustrações como ameaça à própria identidade. A educação emocional na infância é fundamental para a construção de adultos capazes de lidar com conflitos de maneira saudável.
Debate necessário
Casos de violência contra a mulher, assim como todos os crimes, precisam de respostas rápidas e punições exemplares. Entretanto, é preciso debater também sobre o que acontece muito antes desses episódios extremos acontecerem e como a formação emocional, social e afetiva dos meninos precisa entrar nessa discussão; e como olhar para a primeira infância pode ser um dos caminhos mais importantes para entender como chegamos até aqui.
Mas se sabemos que a violência contra mulheres é um problema estrutural, por que, como sociedade, ainda falamos tão pouco sobre a forma como os meninos estão sendo educados desde a infância? Para Ninfa, isso acontece porque há tabus difíceis de serem desconstruídos e há crenças que reproduzem a superioridade masculina. “Essa questão estrutural atravessa todos os aspectos da nossa vida: social, econômica, ética, familiar, cultural, educacional. É como derrubar uma montanha de pedra, precisamos muitas pessoas de diferentes maneiras, ao longo dos anos. Há que ensinar às crianças que não há papeis de gênero, que é absurdo pensar que meninas podem fazer coisas que meninos não podem e vice-versa. Recomendo a leitura da obra A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga (autora traduzida em mais de 25 línguas) que mostra o protagonismo de uma menina que queria ser adulto, ser menino e ser escritora, porque assim conseguiria a emancipação dela. Por meio de muitas brincadeiras, desabafos em um diário, ela consegue se resolver como criança e menina. Por que ela queria ser gente grande, escritora e menino? Porque percebia que teria voz, teria oportunidade de se colocar. Esse livro completa 50 anos em 2026 e foi lido por muitas gerações”, sugere.
Outro ponto importante a ser abordado é sobre o que comumente se percebe na criação de meninos: a “proibição” para expressar emoções. “Percebo, sim, diferença na forma como as famílias incentivam meninos e meninas a expressarem suas emoções. Mas, nossa casa, meus filhos sempre conversaram abertamente sobre o que os incomodava conosco. Além disso, fizeram terapia desde cedo com profissionais aptos a acessar camadas mais profundas de sentimentos e sobre assuntos que não sentissem à vontade conosco”, conta Tatiana, que complementa: “eu sempre fui o tipo de mãe atenta que quando percebia que algo não estava bem, fosse na escola ou no condomínio, eu buscava conversar sobre o assunto e eles sempre se abriram. Mas sei que essa forma de agir não é comum entre pais de meninos. Algumas vezes, inclusive, fui criticada por isso, escutando que eu estava criando pessoas sensíveis demais. Mas minha preocupação nunca foi apenas acalmar sobre o que sentiam, mas olhar a situação, analisar com eles e encontrar um caminho que respeitasse não apenas meus filhos, mas todos ao redor”.
Além do diálogo, ensinar sobre empatia e respeito desde a primeira infância pode ser também uma estratégia de prevenção de violência no futuro. “Quando ensinamos desde cedo que todos têm direito ao próprio corpo, à própria opinião e ao respeito, estamos formando adultos mais conscientes e responsáveis. Trabalhar habilidades socioemocionais na infância, como escuta, diálogo e autorregulação, é uma estratégia concreta de prevenção, pois reduz comportamentos violentos e fortalece relações baseadas na reciprocidade”, avalia Sara.
Mas não é apenas a família que precisa agir. As escolas também tem papel fundamental no combate à violência de gênero. Para Ninfa, é preciso desenvolver uma formação continuada e dialogada com as crianças, os adolescentes e suas famílias sobre gêneros; violência praticada contra mulheres; diversidade; equidades; assédios. “Há livros que podem ser lidos desde a primeira infância. Criar grupos de conversa, clubes de leitura na escola e incentivar que nas casas também possam desenvolver iniciativas favoráveis ao respeito e à empatia”, comenta.
Afinal, como os meninos são ensinados, nas escolas, sobre limites, agressividade e respeito? Para Priscila Moraes, que é psicopedagoga e coordenadora pedagógica da Escola do Futuro Brasil, essa conversa sobre respeito e cuidado é diária. “Procuramos garantir um ambiente seguro para a escuta e reforçar que ninguém tem o direito de se colocar sobre o outro de forma amedrontadora ou desrespeitosa. Inclusive, este ano começamos algumas propostas que terão início na próxima semana, com rodas de conversa exclusivas com as meninas, para que elas tenham um espaço seguro de fala. Os meninos também terão seus momentos de conversa, mas a proposta inicial é dar às meninas um ambiente em que se sintam mais seguras para compartilhar experiências. Assim, caso apareça alguma situação que precise de atenção, podemos agir rapidamente. De modo geral, em uma escola que trabalha com o desenvolvimento de traços de caráter, esses temas são abordados constantemente, independentemente do gênero. Falamos sobre respeito, cuidado, segurança e sobre fazer com que o outro também se sinta seguro”, explica.
Direto ao ponto
A seguir, Guido Boabaid May, Ninfa Parreiras, Sara Maria de Souza e Filipe Colombini.
Aventuras Maternas – Explique o que é o movimento abordado na série Adolescência que também tem encontrado adeptos no Brasil.
Guido Boabaid May – Primeiramente, quero esclarecer o que é “Movimento Red Pill” para aqueles que não são familiarizados. O movimento se concentra principalmente em comunidades online, como Reddit e 4Chan e seu nome faz referência ao filme Matrix, em que “tomar a pílula vermelha” significa enxergar a “verdade” por trás da realidade. Para esse movimento, a “verdade” é que as relações entre homens e mulheres são uma disputa de poder, na qual as mulheres estão em vantagem por “culpa” do feminismo. Além disso, defendem a ideia de que homens devem focar em status, dinheiro, aparência física e domínio emocional para “não serem manipulados” por mulheres. O que antes parecia restrito a grupos pequenos de homens frustrados hoje tem alcançado um número expressivo de meninos e adolescentes, que estão em fase de formação emocional e de identidade. Na adolescência, é natural haver insegurança, medo de rejeição e dúvidas sobre como se relacionar, mas quando esses jovens encontram espaços que transformam frustração em raiva e oferecem explicações simples para experiências complexas (como culpar exclusivamente às mulheres pelos próprios insucessos), isso pode dificultar o desenvolvimento emocional saudável. Esses discursos tendem a desestimular empatia, diálogo e responsabilidade afetiva, além de reforçar uma masculinidade baseada em dominação e desprezo. Em casos mais extremos, podem até mesmo contribuir para a normalização da violência. Não devemos ridicularizar esses jovens, mas buscar entender o que os leva a buscar esse tipo de conteúdo (solidão, baixa autoestima, dificuldade de lidar com rejeição e ausência de modelos masculinos saudáveis) e ajudá-los com educação emocional, conversa aberta dentro de casa e na escola, além de oferecermos referências de masculinidade que incluam vulnerabilidade, respeito e responsabilidade.
Aventuras Maternas – Estamos preparando os meninos para desenvolver relações baseadas em parceria ou ainda reproduzindo modelos de poder e domínio?
Ninfa Parreiras – Estamos reproduzindo modelos de poder e domínio. No livro Sejamos todos feministas, a autora Chimamanda Ngozi Adichie nos diz: “A questão de gênero é importante em qualquer canto do mundo. É importante que comecemos a planejar e sonhar um mundo diferente. Um mundo mais justo. Um mundo de homens mais felizes e mulheres mais felizes, mais autênticos consigo mesmos. E é assim que devemos começar: precisamos criar nossas filhas de uma maneira diferente. Também precisamos criar nossos filhos de uma maneira diferente.” Em outro livro, que toda família deveria ter e ler, Para educar crianças feministas: um manifesto, Chimamanda escreve: “Ensine a ela (menina) que amar não é só dar, mas também pegar. Isso é importante porque damos às meninas pistas sutis sobre a vida delas – ensinamos que um grande elemento de sua capacidade de amar é sua capacidade de se sacrificar. Não ensinamos isso aos meninos. Ensine-lhe que, para amar, ela precisa se entregar emocionalmente, mas que também deve esperar receber.”
Sara Maria de Souza – Ainda convivemos com modelos contraditórios. Embora haja avanços importantes na discussão sobre igualdade de gênero, muitos padrões tradicionais permanecem presentes no cotidiano. Para promover relações baseadas em parceria, é necessário revisar práticas educativas, incentivar a corresponsabilidade e romper com a ideia de que masculinidade está associada ao controle ou à superioridade. A transformação passa pela educação e pelo exemplo diário.
Aventuras Maternas – Ensinar empatia e respeito desde a primeira infância pode ser considerado também uma estratégia de prevenção de violência no futuro?
Filipe Colombini – Ensinar empatia e respeito é fundamental, mas não é suficiente por si só. O desafio é mais amplo. Estamos falando da necessidade de construir novos códigos de civilidade e de sociabilidade para os meninos e para os homens. Isso envolve uma educação emocional mais consistente, que ajude a criança a reconhecer o que sente, entender os próprios pensamentos e desenvolver a capacidade de perceber também os sentimentos e as reações das outras pessoas. Esse processo não acontece de forma automática. Ele é gradual e precisa ser ensinado passo a passo. Desenvolver repertório emocional, aprender a lidar com frustração, reconhecer limites e compreender o impacto do próprio comportamento nas outras pessoas faz parte desse percurso de socialização. Mas essa educação não pode acontecer apenas no nível individual, entre pais e filhos. Ela precisa ser reforçada também nos espaços coletivos de convivência. A escola, por exemplo, é um dos primeiros ambientes de socialização fora da família e tem um papel central na construção dessas referências. É nesse espaço que muitas crianças começam a aprender como conviver, resolver conflitos e lidar com diferenças. Além disso, a cultura ao redor também influencia esse processo. O acesso a diferentes referências em mídias, desenhos, histórias e brincadeiras contribui para ampliar os modelos de comportamento disponíveis para as crianças. Quanto mais variados forem esses modelos, maior a possibilidade de desenvolver formas mais saudáveis de convivência. Outro ponto importante é que os próprios pais também precisam de espaços de troca e reflexão. Comunidades de pais dentro das escolas, por exemplo, podem ser lugares importantes para discutir como educar emocionalmente as crianças e como construir referências mais saudáveis de masculinidade. Não se trata apenas de pensar na educação do próprio filho, mas também no impacto coletivo dessas práticas.
No fim, essa mudança pode começar em nível micro, nas relações cotidianas, dentro das famílias e das escolas. Mas, à medida que essas práticas se expandem e se fortalecem socialmente, elas também produzem efeitos em nível macro, transformando gradualmente as formas de convivência dentro da sociedade.
Aventuras Maternas – A dificuldade de muitos homens em lidar com frustração e rejeição pode ter relação com a forma como foram educados quando crianças?
Ninfa Parreiras – Sim, claro. É importante um menino aceitar que não vai receber o brinquedo que quer; não vai ter tudo que quer. A família, assim, precisa trabalhar com os filhos a frustração: um brinquedo que quebrou ou sumiu, um sorvete que caiu no chão, a perda de um jogo… todas essas são situações que podem ser experenciadas aprendendo a lidar com as perdas, os insucessos. Uma amiga que não brincar ou não quer emprestar o brinquedo, começa aí a aprender a ouvir Não!. E um não é não, ponto. Não há que insistir ou fazer na teimosia. Repetir um tênis usado, não trocar o celular todo ano. Quando um adolescente, jovem ou adulto recebe um fora de uma mulher, lida mal com isso. Por quê? Porque não sabe aceitar um não, uma recusa, uma frustração. E aí o papel da família é importante para perceber que um não pode ser educativo e terapêutico. Há uma leitura que vou sugerir, o conto “A moça tecelã” (também publicado em um livro homônimo), de Marina Colasanti. Fala de frustração, de perda, da mulher e do homem. É um conto maravilhoso que mostra os caprichos de um homem que exige muitas coisas da mulher e ela começa a perceber o quanto ficava trabalhando só para atender às exigências do esposo. Até que ela desfaz o que tecia no tear. Inclusive o marido. É lindo e poético! Meninas e meninos deveriam ler e conversar com adultos nas escolas e famílias.
Em tempo: “Penso que é importante destacar três pontos: violência sexual não é sobre desejo, mas sim sobre poder, controle e desumanização; a maioria dos homens não é violenta e eles precisam fazer parte ativa da solução; a prevenção da violência contra mulheres envolve família, escola, mídia e políticas públicas. Como psiquiatra, reforço: promover saúde mental masculina e revisar padrões rígidos de masculinidade são medidas fundamentais para reduzir violência a longo prazo”, conclui Guido Boabaid May.
