Atendimento à crianças por saúde mental sobe 50% no SUS; entenda
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Nos últimos anos, um movimento silencioso vem ganhando força dentro do sistema público de saúde: o aumento significativo de atendimentos por questões de saúde mental entre crianças pequenas. E os dados mais recentes ajudam a dimensionar esse cenário.
Entre 2023 e 2025, os atendimentos ambulatoriais no Sistema Único de Saúde (SUS) no estado de São Paulo cresceram quase 50% entre crianças de 5 a 9 anos. Só em 2025, foram cerca de 1,2 milhão de atendimentos voltados a transtornos mentais e comportamentais nessa faixa etária – o maior volume entre todas as idades, inclusive acima dos adolescentes. As informações são da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP).
O que explica esse aumento?
O crescimento dos atendimentos pode ser interpretado sob duas perspectivas. De um lado, especialistas apontam um avanço importante: famílias e escolas estão mais atentas à saúde mental das crianças e, com isso, procuram ajuda mais cedo.
“As pessoas têm tido menos vergonha de buscar atendimento para a saúde mental. Teve uma queda no estigma pela busca do psiquiatra e do psicólogo”, explica o psiquiatra infantil Gustavo Estanislau, em entrevista ao Estadão.
Por outro lado, o aumento também levanta um alerta. Isso porque ele acontece em um contexto em que fatores do dia a dia – como excesso de telas, mudanças na dinâmica familiar e maior exposição ao estresse – têm impactado cada vez mais cedo o desenvolvimento emocional das crianças.
O papel das telas e do estilo de vida
Entre os fatores que ajudam a entender esse cenário, o uso excessivo de telas aparece como um dos principais. Segundo especialistas, o tempo prolongado em celulares, tablets e videogames pode reduzir o espaço para o brincar livre – essencial para o desenvolvimento social, emocional e cognitivo. “Esse mesmo excesso de tela tende a fazer com que a criança fique mais sensível à frustração e hiper-reativa ao tédio”, afirma Estanislau.
Além disso, hábitos como sono irregular e alimentação desorganizada, antes mais comuns na vida adulta, também passaram a aparecer com frequência na infância. “É bastante comum que a criança coma mal e durma mal, tenha insônia”, relata o médico.
Nem todo sofrimento é transtorno
Outro ponto importante é entender que nem toda mudança de comportamento indica, necessariamente, um transtorno mental. Muitas crianças estão, na verdade, em sofrimento emocional – o que pode se manifestar em agitação, irritabilidade ou dificuldades na escola.
Esse sofrimento pode ter diferentes origens: conflitos familiares, separações, mudanças na rotina ou até a pressão por desempenho escolar. E, nessa fase da vida, as crianças ainda não têm repertório emocional suficiente para lidar com essas situações.
“Crianças menores tendem a sentir diretamente o sofrimento dos pais”, explica o psiquiatra. “Elas não têm recursos e jogo de cintura para lidar com um pai que está sendo agressivo, com uma mãe que está deprimida.”
Escola: um marco importante
A faixa dos 5 aos 9 anos coincide com a entrada no Ensino Fundamental – uma fase que traz mudanças importantes na rotina. Se antes o ambiente era mais lúdico, agora surgem cobranças relacionadas à alfabetização, desempenho e adaptação social. “Tem um nível de estresse aumentando porque a criança começa a sentir a pressão de ter que se alfabetizar e aprender coisas que as outras estão aprendendo”, diz Estanislau. Esse novo contexto também torna mais visíveis dificuldades de aprendizagem e comportamento, o que contribui para o aumento dos diagnósticos.
Diagnóstico precoce faz diferença
Entre os casos em que há, de fato, um transtorno – como autismo (TEA) ou TDAH -, o diagnóstico precoce é um fator decisivo para o desenvolvimento da criança. Quanto antes há identificação e acompanhamento, menores tendem a ser os impactos ao longo da vida. Isso porque intervenções iniciais ajudam a evitar o agravamento dos sintomas e reduzem a necessidade de tratamentos mais complexos no futuro. “A intervenção precoce pode mudar completamente a trajetória da criança”, reforça o especialista.
Quando a internação é necessária
Embora a maior parte dos atendimentos aconteça de forma ambulatorial – ou seja, sem necessidade de internação -, alguns casos exigem cuidados mais intensivos. A internação psiquiátrica infantil, no entanto, é indicada apenas em situações específicas, como quando há risco de a criança se machucar ou de ferir outras pessoas. Ainda assim, o número de internações também apresentou crescimento no período, embora em menor escala.
Desafios no acesso ao cuidado
Apesar do aumento na procura por atendimento, o sistema de saúde ainda enfrenta limitações. A rede pública conta com portas de entrada como as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), mas a oferta nem sempre acompanha a demanda.
Faltam profissionais especializados, especialmente psiquiatras infantis, e o tempo de espera pode ser longo – o que compromete o início do tratamento. Além disso, especialistas destacam a necessidade de ampliar equipes multidisciplinares, com psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e pedagogos, fundamentais para um cuidado mais completo.
Um reflexo da sociedade
Para além do sistema de saúde, o aumento dos casos também levanta uma reflexão mais ampla: que tipo de ambiente estamos construindo para as crianças? Mudanças sociais, avanço tecnológico e novas dinâmicas familiares têm impactado diretamente o desenvolvimento emocional das novas gerações. E, nesse contexto, a saúde mental infantil deixa de ser um tema secundário para se tornar uma questão central.
Ainda que o crescimento dos atendimentos traga preocupação, ele também revela um avanço: mais crianças estão sendo vistas, ouvidas e cuidadas. E talvez esse seja o primeiro passo para transformar um cenário desafiador em uma oportunidade de olhar com mais atenção (e responsabilidade) para o futuro emocional das próximas gerações.
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