Exercício físico é mais eficiente no tratamento de transtorno do pânico do que práticas relaxantes, diz estudo
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Uma estratégia simples (e acessível) pode fazer diferença no tratamento do transtorno do pânico: movimentar o corpo. Um estudo conduzido pelo Programa de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP indica que exercícios breves e intensos podem ser mais eficazes do que técnicas tradicionais de relaxamento na redução dos sintomas.
A pesquisa reforça um novo olhar sobre o transtorno, que vai além da tentativa de “acalmar” o corpo – e passa a incluir a exposição consciente às próprias sensações físicas.
Entendendo o que é o transtorno do pânico
Antes de tudo, é importante diferenciar crise de pânico de transtorno do pânico. Segundo o psiquiatra Alan Campos Luciano, as crises são episódios intensos e repentinos, marcados por sintomas físicos e emocionais muito fortes.
“A crise de pânico é caracterizada por uma sensação de que vai ter algum evento grave no corpo, um ataque do coração, morrer ou vai perder o controle, ficar louco, associada a sensações do corpo, como coração acelerado, sensação de sufocamento, nó na garganta, sensação de formigamento nas extremidades. Todos esses fenômenos são muito comuns e eles vêm muito rápido, de início abrupto, com pico em dez minutos, e duram em média uns trinta minutos”, explicou, em entrevista à Revista Galileu.
Já o transtorno se instala quando essas crises passam a se repetir sem um gatilho claro. E, principalmente, quando surge o medo constante de que elas voltem a acontecer.
O ciclo silencioso da ansiedade
Um dos pontos centrais do transtorno do pânico é um mecanismo de retroalimentação. A pessoa começa a ficar excessivamente atenta aos sinais do próprio corpo, como batimentos cardíacos ou respiração, e interpreta essas sensações como perigosas.
“Envolve outras características, como uma hipervigilância a sensações do corpo internas, que a gente chama de interoceptivas. Ou seja, a pessoa tende a ficar mais alerta quanto aos batimentos do coração, se o coração está acelerando ou não, aos movimentos respiratórios, se o movimento está ficando mais rápido, se tem sensação de sufocamento”.
Esse estado de alerta constante abre espaço para interpretações distorcidas: “No que ele percebe essa intercepção, esses sinais do próprio corpo, ele passa a considerar, ‘ah, meu coração está batendo mais forte, será que eu tenho alguma coisa errada no meu corpo? Será que eu estou tendo um ataque do coração, alguma coisa assim?’”. A partir daí, o corpo reage com ainda mais ansiedade. É um ciclo que se alimenta sozinho.
Por que o exercício físico pode ajudar?
É justamente nesse ponto que a atividade física entra como aliada. O estudo mostra que provocar, de forma controlada, essas mesmas sensações corporais pode ajudar o cérebro a reinterpretá-las. Em vez de evitar os sintomas, o paciente aprende, na prática, que eles não representam perigo.
“Com base nesse novo modelo do entendimento do pânico, o tratamento padrão hoje é exposição interoceptiva. Ou seja, a gente ensinar o paciente, mas não só ensinar racionalmente, o paciente tem que aprender emocionalmente uma memória implícita, não explícita, que essas sensações do corpo são normais em algumas situações, que elas não são ameaçadoras.”
Tradicionalmente, esse processo é feito em consultório, com exercícios específicos – como subir escadas ou girar o corpo para provocar sensações físicas. A novidade é que atividades físicas mais intensas podem cumprir esse mesmo papel, de forma mais prática e acessível no dia a dia.
“A grande novidade do estudo é que a gente propõe fazer essa exposição interoceptiva de um modo menos fechado em consultório e mais replicável e de fácil acesso para toda a população, que é justamente por atividade física.”
Movimento como ferramenta de reconexão
Ao acelerar o coração durante um treino ou sentir a respiração ofegante, o corpo vivencia sensações muito semelhantes às de uma crise de pânico – mas em um contexto seguro. Com o tempo, essa repetição ajuda a reduzir o medo associado a esses sinais, diminuindo a intensidade e a frequência das crises. Mais do que aliviar sintomas, o exercício atua como uma forma de reeducar o cérebro.
Tratamento é essencial e individualizado
Apesar dos avanços, o especialista reforça que o transtorno do pânico não deve ser ignorado. Sem acompanhamento adequado, a tendência é que os sintomas se tornem crônicos.
“Sem tratamento, mais da metade dos casos tende a cronificar. E voltar a ter novos episódios ao longo da vida, ou seja, é essencial um diagnóstico e um tratamento corretos, uma avaliação adequada para buscar o melhor caminho. Seja com psicoterapia, seja com protocolo de exposição com exercícios, seja até com medicação, se for o caso. Cada perfil de paciente específico merece uma avaliação individualizada para direcionar o melhor tratamento.”
Um novo olhar sobre o cuidado com a ansiedade
A principal mensagem do estudo é clara: fugir das sensações nem sempre é o melhor caminho. Em alguns casos, aprender a vivê-las com segurança pode ser justamente o que reduz o medo. E, nesse processo, o movimento do corpo deixa de ser apenas uma prática física – e se torna também uma ferramenta poderosa de saúde mental.
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