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O que acontece no seu cérebro durante cada fase do ciclo menstrual?
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O que acontece no seu cérebro durante cada fase do ciclo menstrual?

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Bons Fluidos
09/04/2026 23h00
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© Reprodução: Canva/didesign021
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Durante muito tempo, o ciclo menstrual foi estudado quase exclusivamente a partir de seus efeitos no útero, nos ovários e nos sintomas físicos mais conhecidos. Mas pesquisas recentes vêm ampliando esse olhar: as oscilações hormonais ao longo do mês não impactam apenas o corpo reprodutivo – elas também parecem remodelar o cérebro feminino.

Essa descoberta ajuda a explicar por que tantas mulheres relatam mudanças no humor, na energia, na concentração e até na forma como percebem o mundo em diferentes momentos do ciclo. O que a ciência começa a mostrar agora é que essas variações não são “coisa da cabeça” no sentido pejorativo da expressão. Ao contrário: elas podem, sim, ter relação com alterações reais na estrutura e na comunicação entre áreas cerebrais.

Fase a fase: o que acontece no cérebro ao longo do ciclo

Na fase folicular, que começa junto com a menstruação, os níveis de estrogênio começam a subir gradualmente. Esse hormônio está associado a uma melhor comunicação entre neurônios, o que pode favorecer foco, aprendizado e sensação de energia.

Na ovulação, quando o estrogênio atinge seu pico, há uma maior ativação de áreas relacionadas à motivação e à tomada de decisão. Algumas mulheres relatam se sentir mais confiantes e dispostas nesse período.

Já na fase lútea, após a ovulação, a progesterona passa a predominar. Esse hormônio tem um efeito mais calmante, mas também pode aumentar a sensibilidade emocional. Em algumas pessoas, isso se manifesta como irritabilidade, cansaço ou maior oscilação de humor.

O hipocampo entrou no centro dessa discussão

Uma das estruturas que mais chamam atenção dos cientistas é o hipocampo, área cerebral relacionada à memória, ao aprendizado e à organização de informações. Ele concentra muitos receptores de hormônios sexuais e parece responder de maneira sensível às mudanças hormonais.

Essa relação começou a ser observada ainda nos anos 1990, quando estudos com animais mostraram que o estrogênio podia alterar a densidade de estruturas microscópicas envolvidas na comunicação entre neurônios. Na época, a ideia causou estranhamento.

“Esse foi um resultado muito surpreendente e gerou um ceticismo considerável na área”, lembra Catherine Woolley, neurobióloga da Northwestern University, nos Estados Unidos. “Naquela época, considerava-se que os estrogênios eram apenas hormônios reprodutivos e não afetavam regiões cognitivas do cérebro como o hipocampo.”

Desde então, a neurociência avançou bastante. Hoje, sabe-se que o cérebro adulto é mais plástico do que se imaginava – e que pode se reorganizar em resposta a experiências, aprendizados e, ao que tudo indica, também às oscilações hormonais.

Em estudos mais recentes, cientistas acompanharam mulheres em diferentes fases do ciclo menstrual usando ressonância magnética e medição hormonal. O diferencial dessas pesquisas está justamente em observar o mesmo cérebro em vários momentos, em vez de comparar pessoas diferentes em uma única fase.

Em outra pesquisa, com 30 voluntárias, os cientistas observaram que não só a substância cinzenta mudava, mas também a substância branca – tecido responsável por conectar áreas cerebrais e facilitar a transmissão de informações.

A hipótese é que, perto da ovulação, certas mudanças possam favorecer uma comunicação mais eficiente entre regiões do cérebro. “Essas mudanças são muito amplas, não apenas na massa cinzenta, mas também nas áreas do cérebro que são responsáveis pela coordenação entre as regiões e entre as rodovias de massa branca”, explica Viktoriya Babenko.

Isso significa que memória e humor pioram ou melhoram ao longo do ciclo?

Ainda não dá para afirmar. Esse é um dos pontos mais importantes – e que exige cautela. Os estudos mostram que o cérebro pode, sim, sofrer alterações estruturais ao longo do ciclo menstrual. Mas isso não significa automaticamente que essas mudanças tragam melhora ou piora de funções como memória, foco ou raciocínio. Tampouco é possível dizer, com base nesses dados, que oscilações hormonais expliquem diretamente sintomas como irritabilidade, tristeza ou fadiga.

“Não podemos dizer que maior é melhor para determinadas funções ou processos cerebrais”, diz Woolley. Além disso, muitas dessas pesquisas foram feitas com mulheres saudáveis, que não relataram sintomas emocionais ou cognitivos relevantes durante o ciclo. Ou seja: a ciência está observando transformações reais, mas ainda não compreende totalmente como elas se traduzem no dia a dia.

O que já dá para entender até aqui

Em vez de enxergar o ciclo apenas como um evento físico mensal, essas pesquisas propõem uma visão mais ampla: a de que os hormônios ajudam a reorganizar, de forma sutil e recorrente, uma das estruturas mais complexas do corpo humano.

E talvez isso ajude a lançar uma luz nova sobre experiências que muitas mulheres conhecem bem, mas que por muito tempo foram tratadas como exagero, fraqueza ou falta de controle. O cérebro, afinal, também participa dessa conversa.

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