Quem é Neuza Frazatti, pesquisadora que desenvolveu vacina brasileira contra a dengue?
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Em um país que convive há anos com surtos de dengue, a trajetória da pesquisadora Neuza Frazatti ganha contornos de marco histórico. Aos 76 anos, a cientista do Instituto Butantan se tornou um dos nomes centrais no desenvolvimento da vacina 100% brasileira contra a doença – um imunizante de dose única que representa não apenas um avanço da ciência nacional, mas também uma nova esperança para reduzir internações, sofrimento e mortes.
A conquista é resultado de uma jornada longa, exigente e profundamente comprometida com a saúde pública. Mais do que liderar um projeto científico complexo, Neuza ajudou a construir uma resposta brasileira para um problema que afeta milhões de pessoas.
Uma vida dedicada a ensinar e salvar vidas
Antes de se tornar referência em biotecnologia, Neuza já tinha na educação uma vocação muito forte. Vinda de uma família de educadores, ela trabalhou como professora e também se dedicou à alfabetização de adultos. Mas queria ampliar ainda mais o alcance do seu trabalho.
Foi esse desejo de ajudar mais pessoas que a levou aos laboratórios. Em 1978, ela começou sua trajetória no Instituto Butantan como voluntária, atuando em pesquisas ligadas à vacina contra o vírus influenza. Poucos anos depois, prestou concurso para biologista e, em 1984, ingressou oficialmente como pesquisadora científica da instituição.
Bióloga e doutora em Biotecnologia pela USP, Neuza construiu uma carreira marcada por inovação, persistência e compromisso social. Mesmo após a aposentadoria, seguiu trabalhando no Butantan por meio da Fundação Butantan – e foi justamente nessa fase que passou a liderar um dos projetos mais ambiciosos de sua trajetória.
A tecnologia que abriu caminho para a vacina
Muito antes de a vacina contra a dengue ganhar forma, Neuza já trabalhava em uma plataforma tecnológica que seria decisiva para esse avanço. No início dos anos 2000, ela e sua equipe implantaram no Butantan a produção de vacinas e antígenos virais em células Vero, uma linhagem celular amplamente utilizada em pesquisas biomédicas.
Além de representar um passo importante para reduzir o uso de animais em testes, esse método permitiu avanços relevantes em eficiência e segurança. Um dos primeiros frutos desse trabalho foi a vacina contra a raiva produzida em meio livre de soro, aprovada pela Anvisa em 2008. A conquista rendeu à pesquisadora o Prêmio Péter Murányi-Saúde e consolidou sua atuação como uma das principais especialistas da área.
O desafio da dengue
Com a explosão dos casos de dengue no Brasil em 2010, o foco das pesquisas do Instituto Butantan passou a incluir, com ainda mais urgência, o desenvolvimento de uma vacina nacional contra a doença. Foi nesse contexto que a instituição firmou parceria com o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH), recebendo as cepas atenuadas dos quatro sorotipos do vírus.
A partir daí, Neuza assumiu a liderança do projeto. “Tivemos várias reuniões com o NIH e trabalhamos a todo vapor, dia e noite – para nós, não existia sábados, domingos ou feriados. Eu comecei com uma equipe pequena, que foi crescendo e chegou a mais de 50 pessoas. Em quatro anos, finalizamos a formulação da vacina e entramos na fase 2 do estudo clínico”, contou, em entrevista à Forbes.
Uma fórmula complexa e anos de testes
Desenvolver uma vacina contra a dengue sempre foi um desafio científico de grande porte. Isso porque ela precisa proteger contra os quatro sorotipos do vírus para garantir uma cobertura mais completa. Na prática, isso exigiu estudar separadamente o comportamento de cada cepa e ajustar cada etapa do processo, da inoculação à formulação final.
O trabalho foi minucioso. Foram 270 experimentos e 50 tentativas até chegar à composição ideal. “Cada monovalente que compõe a vacina perdia uma quantidade de carga viral diferente ao longo do processo. Então foi preciso estipular para cada vírus qual a quantidade ideal a ser inoculada nas células, qual o período de incubação e o momento certo de coletar, para que na formulação final os quatro tivessem exatamente a mesma concentração”, explica a pesquisadora.
Os resultados, no entanto, mostraram que o esforço valeu a pena. Após bons desempenhos nas fases iniciais, o imunizante avançou nos estudos clínicos em milhares de participantes no Brasil e apresentou níveis de eficácia considerados promissores, com proteção relevante contra a dengue sintomática e formas graves da doença.
O que torna essa vacina tão importante
A vacina desenvolvida pelo Butantan tem um diferencial que pode fazer grande diferença na prática: ela é aplicada em dose única. Em um cenário em que muitas campanhas enfrentam dificuldade para completar esquemas com duas doses, isso facilita a adesão e amplia o potencial de proteção da população.
Outro ponto importante é que o imunizante é liofilizado, ou seja, em pó. Essa característica torna o transporte e o armazenamento mais simples, o que pode favorecer a distribuição inclusive em regiões com menor infraestrutura. Com isso, o Brasil passa a contar com uma solução nacional, pensada para a realidade do próprio país e produzida em larga escala pelo sistema público.
Uma conquista da ciência brasileira – e das mulheres na pesquisa
Ao longo da carreira, Neuza também enfrentou barreiras que vão além do laboratório. Em diferentes momentos, falou abertamente sobre o preconceito vivido por mulheres na ciência e sobre a dificuldade de ter seu trabalho reconhecido com a mesma naturalidade que o de colegas homens.
“Esse prêmio não é só para mim, e sim para todas as cientistas brasileiras e para todas as mulheres. Nós sofremos muita discriminação a vida toda. Muitas vezes, as pessoas não te olham realmente como uma profissional.”
O reconhecimento, porém, veio. Em 2021, ela recebeu o prêmio Women in Life Sciences, da associação farmacêutica internacional Parenteral Drug Association. Antes disso, também havia sido homenageada com medalhas e distinções por sua contribuição ao avanço das ciências biomédicas no Brasil. Mais do que prêmios, seu legado está na formação de equipes, na defesa da pesquisa nacional e na construção de caminhos para que outras mulheres ocupem espaços de liderança na ciência.
Dever cumprido e novos desafios pela frente
Para Neuza, ver a vacina chegando ao braço dos brasileiros tem um significado que ultrapassa a carreira profissional. É a concretização de um propósito de vida. “Será o momento mais importante: quando a vacina chega ao braço das pessoas, evitando sofrimento e salvando vidas”, diz Neuza.
A sensação, agora, é de missão cumprida – ainda que a cientista continue olhando para frente. Entre seus próximos interesses está a pesquisa de uma vacina contra o zika, outro problema que também impacta a saúde pública brasileira.
Sua história mostra que ciência se faz com método, mas também com coragem, visão e persistência. E, no caso de Neuza Frazatti, com a certeza de que pesquisar também é uma forma poderosa de cuidar do outro.
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