Os homens que escalaram o Monte Everest pela primeira vez
Aventuras Na História

Na primavera de 1953, escalar o Everest parecia questão de tempo. Desde 1921, os britânicos tentavam alcançar o cume, mas a montanha os havia repelido em pelo menos dez expedições. Com a descoberta da rota sul, pelo Nepal, e o domínio da perigosa Cascata de Gelo de Khumbu, o caminho estava finalmente traçado.
No entanto, a corrida era acirrada. Os suíços quase conquistaram o feito no ano anterior. Em 1952, Raymond Lambert e o sherpa Tenzing Norgay chegaram a incríveis 8.598 metros — apenas 250 metros abaixo do cume. Eles abriram caminho, mas o topo ainda pertencia ao mistério.
Sob o comando militar de Sir John Hunt, os britânicos organizaram uma operação gigantesca. Foram 350 carregadores, 20 sherpas e toneladas de suprimentos para sustentar uma equipe de apenas dez alpinistas. O plano era claro: duas duplas fariam tentativas de cume, e, se necessário, uma terceira seguiria.
Diferente das expedições anteriores, conhecidas pelo espírito aventureiro e amador, a de Hunt foi profissional, metódica e militarmente precisa. “Você chega lá mais rápido com o máximo”, afirmou o especialista em montanhismo Ken Wilson.
Entre os escaladores, destacava-se um apicultor neozelandês de 33 anos: Edmund Hillary. Experiente e em plena forma física, ele havia enfrentado os picos glaciados da Nova Zelândia, que serviram de treinamento perfeito para o Himalaia. Desde o início, era um forte candidato à equipe de cume.
Desafios
Apesar do preparo, a jornada foi brutal. Problemas com o oxigênio, dificuldades de aclimatação e o terreno traiçoeiro atrasaram o avanço. A equipe levou 12 dias para repetir a rota dos suíços pela face do Lhotse. A chegada ao Colo Sul, em 21 de maio, foi uma vitória — mas também um sinal de alerta. A monção de junho se aproximava, e o tempo estava se esgotando.
A primeira tentativa de cume foi entregue a Tom Bourdillon e Charles Evans, dois alpinistas brilhantes. No dia 26 de maio, eles chegaram a apenas 101 metros do topo, mas exaustos e com pouco oxigênio, decidiram recuar. “Foi uma decisão da qual Tom sempre se arrependeu”, contou o companheiro Michael Westmacott.
Três dias depois, Hillary e Tenzing assumiram a missão final. A escolha da dupla não foi acaso. Hunt queria que um sherpa participasse da conquista, reconhecendo o papel essencial desses montanhistas locais. Tenzing, veterano de seis expedições ao Everest, era o candidato natural.
No dia 29 de maio de 1953, os dois partiram antes do amanhecer. Às 9h, chegaram ao Cume Sul, mas o verdadeiro desafio ainda estava à frente: um paredão de rocha de 12 metros bloqueava o acesso ao topo. Com determinação, Hillary esculpiu degraus no gelo e escalou o obstáculo — o trecho que hoje leva seu nome: o Degrau Hillary.
Às 11h30, eles finalmente pisaram no ponto mais alto da Terra. Apertaram as mãos e se abraçaram. Ficaram apenas 15 minutos no topo. Hillary olhou em volta, buscando sinais dos desaparecidos Mallory e Irvine, mas nada encontrou.
Ao descer, encontrou o amigo George Lowe e anunciou, com simplicidade lendária: “Bem, George, derrubamos o desgraçado!”.
Legado glorioso
A notícia se espalhou rapidamente. Hillary e Tenzing tornaram-se heróis globais. No entanto, um debate surgiu: quem havia pisado primeiro no cume? A imprensa indiana e nepalesa pressionava por reconhecimento a Tenzing, enquanto os britânicos exaltavam Hillary.
Os próprios escaladores decidiram silenciar. “Concordamos em não revelar quem chegou primeiro”, disse Hillary anos depois. “Para um montanhista, isso não importa. Muitas vezes, quem se esforça mais deixa o parceiro ir à frente”.
Segundo o ‘National Geographic’, o pacto durou até Tenzing publicar sua autobiografia, “O Tigre das Neves”, revelando que Hillary fora o primeiro.
Hillary e Tenzing acreditavam que, após sua conquista, o Everest descansaria em paz. Estavam enganados. Desde então, milhares tentaram repetir a façanha. A montanha tornou-se símbolo de superação, desafio e, às vezes, tragédia.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli