Cidade mais isolada do mundo: a curiosa história de Edinburgh of the Seven Seas
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É no meio do Atlântico Sul, cercada por milhares de quilômetros de oceano em todas as direções, que fica a cidade mais isolada do planeta. O pequeno povoado se chama Edinburgh of the Seven Seas e é a única vila habitada do arquipélago de Tristão da Cunha, um território ultramarino britânico administrado a partir da ilha de Santa Helena.
Com cerca de 250 habitantes, o vilarejo está localizado a mais de 2.400 quilômetros da costa da África e a quase 3.000 quilômetros da América do Sul, o que faz dele o assentamento humano permanente mais remoto do mundo. O isolamento é tão grande que não existe aeroporto na ilha. Para chegar ali, é preciso enfrentar uma viagem de navio que normalmente dura entre seis e dez dias, partindo da Cidade do Cabo, na África do Sul.
A geografia também ajuda a explicar o isolamento extremo. A ilha principal é dominada pelo Queen Mary’s Peak, um vulcão ativo com mais de 2 mil metros de altitude, frequentemente coberto por neve durante o inverno. Ao redor dele, falésias, encostas íngremes e um oceano quase sempre agitado reforçam a sensação de estar em um dos lugares mais remotos do planeta.
Mas para entender como surgiu a cidade mais isolada do planeta, é preciso voltar ao início da era das grandes navegações.
Como surgiu a cidade mais isolada do mundo
O arquipélago de Tristão da Cunha foi avistado pela primeira vez em 1506, quando o navegador português Tristão da Cunha navegava rumo à Índia. Uma forte tempestade impediu o desembarque, mas o explorador registrou a existência da ilha principal, que posteriormente receberia seu nome.
Durante séculos, o arquipélago permaneceu praticamente desabitado. O isolamento geográfico, somado às condições difíceis de navegação, afastava qualquer tentativa de colonização permanente. As ilhas serviam basicamente como ponto de referência para navegadores que cruzavam o Atlântico Sul.
Ao longo do tempo, algumas expedições científicas, navios baleeiros e aventureiros passaram pela região. Ainda assim, nenhum assentamento duradouro conseguiu se estabelecer ali até o início do século 19.
Ocupação britânica e nascimento da cidade
A história da ocupação permanente começou apenas em 1816, quando o Reino Unido decidiu anexar o arquipélago por motivos estratégicos. O objetivo era impedir que o território fosse usado como base para uma possível tentativa de resgate de Napoleão Bonaparte, que havia sido exilado na ilha de Santa Helena, a cerca de 2.400 quilômetros dali.
Assim, um pequeno destacamento militar britânico foi enviado para ocupar Tristão da Cunha. Embora os soldados tenham deixado a ilha pouco tempo depois, alguns colonos decidiram permanecer. Entre eles estava William Glass, militar escocês que fundou a comunidade que viria a se tornar Edinburgh of the Seven Seas. Glass estabeleceu um pequeno assentamento agrícola baseado na cooperação entre os moradores e na produção de alimentos para subsistência.
Aos poucos, outros habitantes chegaram à ilha, entre eles marinheiros, náufragos e colonos vindos de diferentes partes do mundo. Com o passar das décadas, esse pequeno grupo inicial deu origem à comunidade que ainda vive no arquipélago.
Cidade minúscula no meio do Atlântico
Hoje, toda a população de Tristão da Cunha vive em Edinburgh of the Seven Seas, localizada na costa norte da ilha principal. A vila foi batizada em homenagem ao príncipe Alfred, duque de Edimburgo, que visitou o arquipélago em 1867. Mas apesar do nome pomposo, o povoado manteve-se pequeno. Até hoje, quem vai até lá encontra poucas ruas, casas simples e uma paisagem dominada pelo vulcão Queen Mary’s Peak e pelo oceano.
O fato de ser a cidade mais isolada do planeta, não significa uma falta de infraestrutura completa. Para manter-se viva, a comunidade conta com escola, hospital, igreja, correios, um pequeno supermercado e um porto simples.
Hotéis, entretanto, nem pensar. Os raros visitantes que conseguem autorização para viajar até Tristão da Cunha normalmente ficam hospedados em casas de moradores locais ou em acomodações comunitárias.
Durante décadas, a ilha teve comunicação extremamente limitada com o mundo exterior. Apenas nos últimos anos passou a contar com internet via satélite e telefonia mais estável. Ainda assim, as conexões são lentas e dependem das condições climáticas.
Comunidade de poucas famílias
Por ser pequena, a população de Tristão da Cunha é extremamente conectada entre si. Para se ter uma ideia de como funciona isso na prática, basta perceber que a maioria dos moradores são descendentes diretos dos primeiros colonos que chegaram no século 19. Isso significa que a maioria das pessoas compartilha apenas alguns sobrenomes. Entre os mais comuns estão Glass, Green, Swain, Rogers, Hagan e Lavarello.
Apesar do isolamento extremo, os moradores mantêm uma vida comunitária bastante ativa. Decisões importantes da ilha costumam ser tomadas em conjunto, com participação da população e de um conselho local eleito.
A economia local gira principalmente em torno da pesca, especialmente da captura da lagosta de Tristão da Cunha, um produto de alto valor no mercado internacional. Grande parte dessa produção é exportada para países como Japão, Estados Unidos e nações da Europa, o que ajuda a sustentar financeiramente a comunidade.
Outra curiosidade pouco conhecida é que os selos postais de Tristão da Cunha são bastante procurados por colecionadores ao redor do mundo. De tão famosos, tornaram-se uma pequena fonte de renda para o arquipélago.
Erupção quase destruiu a cidade
A história da cidade mais isolada do planeta teve seu momento mais dramático em 1961, quando o vulcão da ilha entrou em erupção. A atividade começou com pequenos tremores e rapidamente se intensificou, obrigando a evacuação completa de Edinburgh of the Seven Seas. Todos os moradores foram levados inicialmente para a ilha de Nightingale e, depois, transferidos para o Reino Unido.
Modo de vida único no planeta
Hoje, Edinburgh of the Seven Seas se orgulha de ser a cidade mais isolada do planeta. A ausência de aeroportos, a dependência do mar e o tamanho reduzido da população criaram um estilo de vida muito particular.
Grande parte das atividades da comunidade funciona de forma coletiva, desde a pesca até a manutenção das estruturas da ilha. O isolamento também ajudou a preservar tradições locais e um forte senso de cooperação entre os moradores.
Apesar de a internet via satélite e de as comunicações modernas terem reduzindo um pouco a sensação de distância, Tristão da Cunha continua vivendo em outro ritmo, às margens das mazelas que tomam conta da maior parte do mundo.
No mapa, Edinburgh of the Seven Seas pode parecer apenas um pequeno ponto perdido no Atlântico Sul. Mas, para quem vive ali, aquele pedaço de terra cercado por milhares de quilômetros de oceano continua sendo simplesmente o lar, doce lar.

