Cradle of Humankind: uma viagem ao Berço da Humanidade
Rota De Férias
Se você estiver em Joanesburgo, na África do Sul, uma das experiências que não pode faltar no roteiro é uma visita ao Cradle of Humankind, ou “Berço da Humanidade”. Localizado a cerca de 50 quilômetros a noroeste da cidade, na província de Gauteng, esse Patrimônio Mundial da UNESCO combina história, ciência e muita curiosidade.
O nome já diz muito: o Cradle of Humankind é o lugar onde fósseis de ancestrais do homo sapiens foram preservados por milhões de anos, oferecendo um vislumbre fascinante das origens humanas. É o principal sítio histórico do mundo relacionado à história da evolução da espécie até a chegada dos homo sapiens.
Chegar lá é relativamente fácil. Você pode ir de carro (lembrando que a mão na África do Sul é inglesa), o que permite explorar a região com liberdade, ou contratar excursões guiadas que partem de Joanesburgo. Muitas delas, como esta aqui, já incluem transporte e ingressos, o que é especialmente prático se você quiser aproveitar o passeio sem se preocupar com logística.
O roteiro ideal reúne três atrações próximas na região:
- Sterkfontein Caves: onde foram desobertos alguns dos fósseis mais importantes do mundo.
- Maropeng Visitor Center: com exposições interativas que explicam a história da evolução humana.
- NIROX Sculpture Park: um parque de esculturas contemporâneas ligadas à história da humanidade inserido em uma paisagem deslumbrante.
Com tudo isso em um único passeio, é possível passar o dia inteiro entre cavernas, museus e arte, com muita informação e diversão. Neste texto, vou explorar cada um desses locais com detalhes: o que esperar, como é a visita, curiosidades sobre as descobertas e dicas práticas para aproveitar ao máximo.
Prepare-se para um tour e tanto que mistura ciência, história e cultura, bem no coração da África do Sul.
O que é o Cradle of Humankind
Sterkfontein Caves, onde 40% dos fósseis de homínidios da história foram encontrados | Paulo Basso Jr.
O Cradle of Humankind, localizado na província de Gauteng, África do Sul, é um arquivo vivo da evolução humana. Com aproximadamente 47 mil hectares, a área abriga um complexo sistema de cavernas de calcário que preservou fósseis de hominídeos com idades que variam de 2 a 3,5 milhões de anos. Para cientistas e historiadores, o local é um dos centros mais importantes do planeta para compreender a origem e a evolução da espécie.
O que torna o Cradle of Humankind único é a combinação de geologia e preservação natural. As cavernas são formadas por dolomita, rocha que favorece a formação de espaços subterrâneos. Ali, os sedimentos calcários permitiram que ossos e artefatos se conservassem ao longo de milhões de anos. Dessa forma, o espaço se toruno um testemunho da paciência da natureza, da ação do tempo e do acaso que moldou o lugar onde hoje é possível caminhar, como em nenhum outro canto do mundo, sobre a história da humanidade.
Por que o Cradle of Humankind é tão importante
Durante tour, guia explana a importância histórica das Sterkfontein Caves | Paulo Basso Jr.
O Cradle of Humankind se destaca pela qualidade e diversidade dos fósses descobertos. Entre os principais pontos de relevância achados por lá estão:
- Maior concentração de fósseis de hominídeos do mundo: mais de 40% dos fósseis de ancestrais humanos foram encontrados nele.
- Descobertas emblemáticas: a Mrs Ples (Australopithecus africanus), nome popular do mais completo e mais antigo esqueleto da espécie Australopithecus africanus encontrado – sobre a qual falarei mais abaixo – e o Homo naledi, com mais de 1.500 ossos de pelo menos 15 indivíduos, incluindo depósitos possivelmente intencionais de corpos. Isso sem contar outras espécies de Australopithecus e Homo que mostram coexistência e diversidade evolutiva.
- Ferramentas e artefatos: foram encontradas as primeiras ferramentas de pedra usadas por hominídeos, evidenciando habilidades cognitivas e planejamento.
- Evidências de comportamento: restos de fauna e marcas em ossos indicam dieta, caça e estratégias de sobrevivência, além de possíveis comportamentos rituais.
- Dados geológicos únicos: sedimentos e cavernas de dolomita preservaram fósseis e forneceram informações sobre clima, vegetação e ambiente de milhões de anos atrás.
- Contribuição científica global: os achados da região continuam a gerar pesquisas sobre evolução humana, com debates a respeito de cronologia, espécie e comportamento, enriquecendo a história do Homo sapiens.
Relação com o Homo sapiens
Escultura de Robert Broom com Mrs Ples | Paulo Basso Jr.
O ponto central da fama do Cradle of Humankind são as Sterkfontein Caves, onde foram encontrados fósseis que ajudam a entender a transição de espécies como o Australopithecus africanus para o Homo sapiens. O Australopithecus é um gênero ancestral que viveu entre 4 e 2 milhões de anos atrás. Uma de suas principais características é a postura bípede: embora ainda tivesse braços longos e adaptações para escalada, ele já caminhava sobre dois pés, o que representa um passo crucial na linha evolutiva que culmina na humanidade como hoje é conhecida.
Em 1947, o paleontólogo sul-africano Robert Broom descobriu o famoso crânio da Mrs Ples, um Australopithecus africanus adulto. O feito é comparado ao de Lucy, Australopithecus afarensis encontrado na Etiópia. Há debates sobre qual das duas espécies seria mais antiga: Lucy é mais reconhecida e tem cerca de 3,2 milhões de anos, enquanto Mrs Ples foi datada de aproximadamente 2,1 milhões de anos. Estudos recentes, porém, indicam que ela pode ter entre 3,4 milhões e 3,7 milhões de anos.
O estudo de Mrs Ples e de outros fósseis da região ajudou a traçar a transição de formas mais primitivas de Australopithecus para espécies do gênero Homo, como Homo habilis, Homo erectus e, eventualmente, o Homo sapiens. Elementos como tamanho do cérebro, postura ereta, uso de ferramentas e complexidade social são analisados justamente nesses fósseis.
Mrs Ples: a senhora do passado
O crânio de Mrs Ples | Reprodução / Wikipedia
Entre todas as descobertas associadas ao Cradle of Humankind, Mrs Ples é, sem dúvida, uma das mais emblemáticas. Seu apelido surgiu porque, à época, os cientistas acreditaram que ela fosse uma fêmea adulta e possivelmente “casada”, em alusão à ideia de maturidade social e familiar que os pesquisadores projetaram sobre sua vida.
Mrs Ples nos conta muito sobre a evolução humana. Sua estrutura craniana revela um cérebro pequeno, em torno de 485 cm³ — maior que o de um chimpanzé, mas três vezes menor que o de um Homo sapiens. O rosto achatado e os dentes grandes indicam uma dieta variada, e seu corpo, bípede, confirma que caminhar sobre dois pés já era uma característica consolidada no Australopithecus africanus.
Como é a visita às Sterkfontein Caves
Entrada das Sterkfontein Caves, no Cracle of Humankind | Paulo Basso Jr.
O tour nas Sterkfontein Caves, como não poderia deixar de ser, é bem interssante, embora desafiador para algumas pessoas. O passeio guiado dura em média uma hora e meia e exige um esforço físico moderado. Isso porque é preciso subir e descer degraus de pedra irregulares, contornar saliências e, em certos trechos, agachar ou até se arrastar de cócoras.
Para quem sofre de claustrofobia, é um teste de resistência. Em determinados trechos, a sensação de confinamento é real, mas a experiência costuma ser mais fascinante do que assustadora, especialmente com o guia ao lado, com uma lanterna, explicando cada detalhe.
Há luzes artificiais na maior parte do trajeto – e aqui, inclusive, fica uma crítica: brancas, elas muitas vezes mais atrapalham do que ajudam. Caso pretenda fazer fotos (vídeos não são permitidos), tenham em conta que a iluminação atrapalhar bastante.
Ainda assim, o que mais impressiona durante a visita é a geologia das cavernas: stalactites e stalagmites com milhões de anos, formações calcárias que parecem esculturas naturais e sedimentos que preservaram ossos e artefatos por eras chamam atenção. É incrível a sensação de estar ali e pensar que aquele pode ser o "berço da humanidade".
É quando se chega à história da evolução humana, por sinal, que a experiência ganha outra dimensão. Com uma réplica do crânio de Mrs Ples, o guia reúne o grupo e detalha a origem e vida do Australopithecus africanus: como era sua postura bípede, a anatomia do crânio, os braços longos adaptados à escalada e como essas características conectam o Homo Sapiens ao passado. Crianças e adultos ficam vidrados em tudo que ali é falado e demonstrado.
O lago subterrâneo e a escuridão total
O lago é uma das atrações mais cênicas das Sterkfontein Caves | Paulo Basso Jr.
Um dos momentos mais memoráveis da visita às Sterkfontein Caves é a chegada a um lago subterrâneo, completamente escuro e sem vida. A água é negra porque a luz não penetra ali, e o reflexo do teto calcário, iluminado artificialmente, cria sombras surreais. É impossível não sentir uma mistura de respeito e espanto diante daquilo que a natureza preservou em silêncio absoluto.
Em outro trecho, o guia apaga todas as luzes para que o grupo experimente a escuridão total. A ideia é que todos entendam como um pesquisador passou 26 dias consecutivos na mais profunda escuridão dentro da caverna estudando suas formações. Aos poucos, os olhos vão se acostumando e você começa a perceber detalhes em meio às formações. É muito interessante.
Maropeng Visitor Center
Maropeng Visitor Center | Paulo Basso Jr.
Depois de visitar as Sterkfontein Caves, minha dica é seguir para o Maropeng Visitor Center. Localizado a cerca de 10 minutos de carro, o local serve como uma continuação lógica da viagem pelo tempo: se nas cavernas é possível sentir a geografia moldada por milhões de anos, no Maropeng dá para absorver mais detalhes a respeito da história da humanidade e sua evolução a partir desse cantinho da África do Sul.
Avistar o Maropeng Visitor Center é, por si só, uma experiência e tanto. O prédio foi projetado para remeter a um túmulo ancestral, em um gesto simbólico que conecta o visitante à ideia de que a evolução humana é, acima de tudo, uma história de vidas preservadas e memórias antigas.
O formato do centro é inspirado em sepulturas megalíticas encontradas em várias regiões do mundo. A entrada se curva suavemente, criando um efeito de túnel que guia o visitante de fora para dentro, quase como se estivéssemos entrando na própria Terra para explorar o passado. O prédio se eleva em linhas arredondadas, lembrando uma cúpula ou um dolmen, estruturas que historicamente abrigavam os mortos e serviam como monumentos de memória e respeito.
O design interno do Maropeng, que significa “o lugar onde nascemos” em Setswana, também é funcional. As formas arredondadas e a iluminação direcionada ajudam a criar circulação fluida, orientando o visitante de maneira intuitiva pelo percurso das exposições. Ao mesmo tempo, a referência simbólica ao túmulo adiciona uma dimensão emocional à visita: você não está apenas aprendendo, está vivenciando a memória coletiva da espécie humana.
Passeio de barco e experiências interativas
Passeio de barco durante o tour agrada, principalmente, às crianças | Paulo Basso Jr.
O tour guiado começa em uma sala onde é possível ver uma réplica de Mrs Ples – o crânio original da "Mrs. Ples" está guardado no Ditsong National Museum of Natural History, em Pretória, na África do Sul. Ali também dá para ver réplicas de outros fósseis de hominídeos, bem como compartivos de evolução do cérebro, das mãos e de outros detalhes do corpo humano.
Em seguida, para alegria das crianças, há um passeio de barco interno, que percorre uma réplica do percurso evolutivo da vida na Terra. O barco desliza por um pequeno canal iluminado por projeções que representam elementos como água, fogo, terra e ar.
Depois, chega-se ao museu propriamente dito. Nele, há engenhocas e telas sensíveis ao toque que permitem manipular fósseis digitais, modelos de crânios que se encaixam para mostrar diferenças entre espécies e simuladores que permitem comparar força, postura e movimento dos nossos ancestrais com os humanos modernos.
Ao longo de uma hora, dá para ver tudo. E entender melhor porque a região foi batizada de Cradle of Humankind, o berço da humanidade.
NIROX Sculpture Park
NIROX Sculpture Park | Paulo Basso Jr.
Caso tenha tempo, na volta para Joanesburgo, dê uma parada no NIROX Sculpture Park. Trata-se de um parque com esculturas ao ar livre, muitas delas ligadas à história da evolução humana.
Um mapa detalhado é entregue na entrada. A partir dele, você pode seguir por trilhas que levam a lagos, árvores belíssimas e, acima de tudo, obras de arte integradas à natureza.
A instalação de Mary Sibande, por exemplo, retrata mulheres em figurinos monumentais, carregados de simbolismo cultural e social, lembrando que a história da humanidade não é feita apenas de fósseis, mas também de trajetórias de vida, identidade e resistência. Colocadas próximas a pequenas lagoas e áreas arborizadas, suas figuras em painéis criam um paralelo poético com os ciclos da vida e a memória preservada nas cavernas.
Diego Masera, por sua vez, deixou sua marca com uma linda casinha dourada erguida sobre um lago. Já Angus Taylor é responsável por Morphic Resonance, um enorme homem de pedra sentado, que fica em frente a um belo café.
Uma área especial abriga esculturas de madeira acompanhadas de informações em braile, voltadas para visitantes cegos. É uma forma de conectar todos os sentidos à história da humanidade e à experiência estética, lembrando que evolução e percepção sempre caminharam juntas, muito antes da escrita e da arte formal.
Integração com a paisagem
Morphic Resonance, obra de Angus Taylor | Paulo Basso Jr.
O NIROX Sculpture Park foi inaugurado em 2010, com a intenção de criar uma experiência em que arte, natureza e história humana se entrelaçam. Caminhar pelas trilhas sinuosas, subir colinas e contornar lagoas é uma maneira de se aproximar da mesma terra que nossos ancestrais cruzaram, agora reinterpretada por artistas contemporâneos.
Trata-se de uma conclusão lógica de um roteiro pelo Cradle of Humankind. Depois de sentir a história viva nas Sterkfontein Caves e a narrativa interativa do Maropeng Visitor Center, a arte ao ar livre do NIROX Sculpture Park é o desfecho perfeito deste passeio que propõe uma incrível viagem no tempo.
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