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Como é o Museu do Apartheid, em Joanesburgo – Dicas e atrações
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Como é o Museu do Apartheid, em Joanesburgo – Dicas e atrações

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Rota De Férias
16/10/2025 13h07
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O Museu do Apartheid é, sem dúvida, a atração que mais me impactou em Joanesburgo, na África do Sul. Desde a entrada até o final apoteótico do passeio, o espaço transmite uma intensidade capaz de abalar até as pessoas mais estruturadas. Sério: se você for até lá e sair indiferente, é porque já morreu por dentro.

Inaugurado em 2001, o museu foi projetado para contar, de maneira cronológica e detalhada, a história do apartheid, o nefasto sistema de segregação racial que marcou a África do Sul entre 1948 e 1994. Mais do que um espaço expositivo, o local é um convite à reflexão sobre as atrocidades cometidas não num passado distante, mas há poucas décadas atrás.

Ao caminhar pelos corredores, percebe-se que cada sala, objeto e fotografia não estão lá à toa: a ideia não é apenas relatar a história, mas provocar empatia e compreensão. Não é um passeio fácil. Em muitos momentos, fiquei abalado e com o coração pesado.

Ainda assim, e por isso mesmo, visitar o Museu do Apartheid é indispensável para quem vai a Joanesburgo. É a partir dele que você entende a cidade e as regiões onde a maioria da população segregada foi forçada a morar, como Soweto. Isso sem contar a belíssima trajetória de Nelson Mandela e, acima de tudo, as lições deixadas a partir das inequívocas consequências provocadas pela atuação de governos autoritários e supremacistas.

Importante: reserve um bom tempo para a visita. Eu passei pouco mais de três horas dentro do Museu do Apartheid e, ainda assim, não deu para absorver tudo que é mostrado por lá. O ideal são quatro horas – ou até mais. Acredite: não é exagero.

Museu do Apartheid

Como é o Museu do Apartheid, em Joanesburgo – Dicas e atrações As entradas de "Brancos" e "Não-Brancos" no Museu do Apartheid | Paulo Basso Jr.

Logo na entrada do Museu do Apartheid você já “toma um tapa na cara”. Ao comprar o ingresso na bilheteria, todos os visitantes recebem, de forma aleatória, um bilhete que os classificam como "Branco" ou "Não-Branco".

A partir daí, é hora de seguir para a porta designada de acordo com “sua raça”. À esquerda entram os “Brancos” e, à direita, os “Não-Brancos”, como ocorria em muitos estabelecimentos sul-africanos (e mesmo em outros países, como os EUA) no período em que vigorou o apartheid.

Após atravessar a catraca, a sensação é semelhante à de entrar numa prisão. Entre grades, estão réplicas aumentadas de documentos que as pessoas precisavam portar para comprovar seu status racial. Alguns passos adiante, todos se juntam no lobby do museu, ponto de partida para as 22 seções que contam, de forma cronológica, a ascensão e queda do apartheid.

O que significa apartheid

Como é o Museu do Apartheid, em Joanesburgo – Dicas e atrações Entre grandes, é possível ver os documentos que as pessoas precisavam portar durante a segregação | Paulo Basso Jr.

Durante a visita ao Museu do Apartheid, você aprende nas primeiras salas como o regime foi implementado. A história começa bem antes do século 20, com a exploração do ouro na região de Joanesburgo e a chegada de europeus, sobretudo, do Reino Unido e dos Países Baixos.

A busca por terras e pelo poder gerou animosidades culturais que culminaram na ascensão do Partido Nacional, de extrema-direita. A aprovação de leis que limitavam a compra de terrenos na maior parte do território da atual África do Sul e até mesmo de países vizinhos à minoria “europeia” da população é apontada como o início institucionalizado do apartheid, palavra que significa "separação" em africâner (uma língua derivada do holandês).

A partir daí, o sistema político em vigor estabeleceu uma série de leis pautadas na discriminação racial, separando ao longo dos anos a sociedade sul-africana com base na cor da pele. Os grupos eram:

  • Brancos: Apesar de serem absoluta minoria (cerca de um quinto da população), ocupavam a elite no poder, com acesso total a direitos políticos e econômicos.
  • Africanos (negros): Representavam a vasta maioria da população (cerca de 80%) e foram relegados a uma posição de inferioridade, com acesso limitado a direitos civis e políticos. Eram obrigados a portar identificações para entrar em áreas destinadas aos brancos e forçados a viver em áreas designadas.
  • Coloridos (mestiços): Pessoas de descendência mista, que foram segregadas em suas próprias categorias e tinham direitos restritos.
  • Indianos: Foram proibidos de comprar terras e confrontados com restrições à posse de imóveis e outros direitos.

 Narrativa cronológica

Como é o Museu do Apartheid, em Joanesburgo – Dicas e atrações Lista de vítimas e outros detalhes chocantes estão expostos | Paulo Basso Jr.

A origem do apartheid é apenas o começo do que o Museu do Apartheid tem a oferecer. Ao longo de 22 seções apresentadas de forma cronológica, o local mostra detalhadamente como o regime se desenrolou e como a sociedade sul-africana foi afetada. As exposições retratam a vida diária sob a segregação, as leis opressivas, a resistência da população e a gradual transição para a democracia.

As seções contam com fotos históricas, vídeos, depoimentos, objetos e documentos originais que estabelecem uma narrativa intensa e imersiva. O uso de recursos visuais e sonoros dá vida a uma atmosfera impactante, que mexeu bastante comigo.

Há muitas cenas de violência gravadas e exibidas sem cortes, o que gera uma sensação de impotência (para não dizer raiva). Só de imaginar o sofrimento vivido, o estômago se revira.

Arquitetura e experiência sensorial

Como é o Museu do Apartheid, em Joanesburgo – Dicas e atrações Repressão policial era violenta nos protestos contra o regime | Paulo Basso Jr.

Um dos aspectos que mais me impressionaram no Museu do Apartheid, em Joanesburgo, é a forma como a arquitetura e o design do espaço contribuem para transmitir o peso histórico e emocional do tema. A experiência sensorial é completa e cuidadosamente planejada para transmitir, de maneira psicológica, a opressão e a resistência que marcaram o período do apartheid.

Os corredores estreitos, as paredes de concreto frio e as estruturas metálicas lembram as prisões e campos de detenção onde milhares de pessoas foram mantidas por desafiar o regime. Em alguns trechos, o som de passos ecoando nos corredores vazios reforça a sensação de isolamento. Luzes baixas criam uma atmosfera pesada, que te obriga a desacelerar e refletir.

Cela de Mandela

Como é o Museu do Apartheid, em Joanesburgo – Dicas e atrações Réplica da cela de Nelson Mandela em Robben Island | Paulo Basso Jr.

Um exemplo é a réplica da cela em que Nelson Mandela ficou em Robben Island, além de solitárias em que muitos presos políticos passaram parte de suas vidas. Elas são tão pequenas que mal é possível estender os braços.

Há também áreas mais amplas, onde bandeiras e murais coloridos representam o renascimento da África do Sul e a esperança após o fim da segregação. Essa alternância entre opressão e liberdade foi pensada para conduzir o visitante por uma jornada emocional, que vai do desespero à superação.

O uso de recursos audiovisuais é outro ponto alto. Telas espalhadas pelas galerias exibem discursos históricos, manifestações e cenas do cotidiano da época. O som das marchas e das vozes em protesto parece ecoar por todo o prédio, tornando impossível ficar indiferente. Em vários momentos, confesso que precisei parar, respirar fundo e apenas observar em silêncio.

A área externa também tem um papel importante. Logo na saída, há um jardim dedicado à reflexão, onde é possível sentar e absorver tudo o que foi visto lá dentro. É um espaço de paz, quase um contraponto simbólico à tensão sentida durante a visita, e que representa a libertação e a reconciliação do povo sul-africano.

A trajetória de Nelson Mandela

Como é o Museu do Apartheid, em Joanesburgo – Dicas e atrações Um dos símbolos da união dos povos promovida por Mandela é o campeonato de rugby retragado no filme Invictus | Paulo Basso Jr.

Como não poderia deixar de ser, o Museu do Apartheid dedica uma área extensa à vida de Nelson Mandela, um dos maiores líderes da história moderna e símbolo da luta contra o apartheid. A exposição permite que você acompanhe a trajetória de Madiba (como era apelidado em referência ao clã que pertencia) desde a infância até a morte.

A história de Mandela começa em Mvezo, no interior da África do Sul, onde nasceu em 1918. O museu mostra detalhes da infância e da mudança para Qunu, da educação e da influência da família e da comunidade, que moldaram seus valores e sua determinação pela justiça social. É fascinante perceber como, mesmo desde jovem, ele já demonstrava coragem e senso de liderança.

Em seguida, o acervo aborda a formação acadêmica e a militância política de Mandela, com foco em sua atuação na African National Congress (ANC) e na luta contra as leis raciais do apartheid. Fotografias, cartas e documentos pessoais ajudam a contextualizar a vida em Soweto e os desafios enfrentados por ele e por outros líderes da resistência.

A seção mais impactante, para mim, foi a que mostra o período em que Mandela ficou preso em Robben Island e, depois, em outras prisões. Vídeos e depoimentos mostram como o futuro Prêmio Nobel da Paz manteve a esperança, a dignidade e o espírito de liderança, mesmo sob condições extremas.

O museu também apresenta a libertação em 1990, o processo de negociação para o fim do apartheid e a eleição como primeiro presidente democraticamente eleito da África do Sul, em 1994. É emocionante ver como ele trabalhou pela reconciliação nacional, promovendo a união entre diferentes grupos raciais e construindo uma democracia baseada na igualdade de direitos.

Por fim, a trajetória de Mandela é completada com seu legado pós-presidência e a morte em 2013, mostrando como suas ações continuam inspirando o mundo. Há também referências a outras figuras importantes na luta contra o regime, como Desmond Tutu, que também foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz.

Refundação da África do Sul

Como é o Museu do Apartheid, em Joanesburgo – Dicas e atrações Uma enorme bandeira da África do Sul está exposta na última sala do museu | Paulo Basso Jr.

Como já disse por aqui, a visita ao Museu do Apartheid é comovente e perturbadora. Você é confrontado o tempo todo com as duras realidades do passado do país, embora também celebre a coragem e a resiliência do povo sul-africano.

O aprendizado é profundo. Na última seção, você dá de cara com uma bandeira da África do Sul e os pilares que passaram a reger a constituição do país após o fim do regime. Ao fundo, o hino do país ecoa. É bem emocionante.

Por conta de tudo isso, ir ao Museu do Apartheid é uma das visitas mais importantes para quem vai à África do Sul. Trata-se de um passeio duro e difícil, mas essencial para entender a identidade do país. Mais do que tudo, é uma lição explícita para que atrocidades como essa jamais sejam apoiadas ou repetidas.

Informações práticas

Como é o Museu do Apartheid, em Joanesburgo – Dicas e atrações Museu do Apartheid é uma das principais atrações de Joanesburgo | Paulo Basso Jr.

Aqui, vou deixar algumas informações práticas para que você se planeje na hora de visitar o Museu do Apartheid:

Localização

O Museu do Apartheid está localizado no cruzamento das estradas Gold Reef e Northern Parkway, em Ormonde, Joanesburgo. O endereço completo é: Northern Parkway, Gold Reef Rd, Ormonde, Johannesburg South, 2001

Horário

O museu funciona de quarta a domingo, das 9h às 17h. Recomendo reservar de três a quatro horas para a visita.

Estrutura

O Museu do Apartheid conta com restaurante, loja de suvenires e diversos banheiros. Há wi-fi gratuito.

Ingressos

Para quem quiser evitar filas, a dica é comprar o ingresso antecipadamente online pelo site oficial do museu ou por plataformas de turismo locais. Também vale considerar a visita com guias especializados, que ajudam a contextualizar melhor a exposição e as conexões com outros pontos históricos de Joanesburgo, como Soweto e a Casa de Mandela.

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do TIM NEWS, da TIM ou de suas afiliadas.
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