Luiza Mahin e Dandara existiram? Saiba o que dizem historiadores
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A historiografia tem papel essencial ao separar fatos de construções simbólicas, atualizando constantemente a forma como enxergamos o passado. Nesse processo, alguns personagens até então considerados míticos acabam ganhando comprovação documental, enquanto outros revelam ter surgido apenas do imaginário coletivo. Nos últimos anos, duas figuras femininas de destaque no debate sobre memória e resistência passaram a ocupar o centro dessas discussões no Brasil: Luiza Mahin e Dandara dos Palmares.
Mãe mítica?
Por décadas, Luiza Mahin foi vista ora como personagem lendária, ora como a “mãe mítica” do abolicionista Luiz Gama. Sua existência era contestada por falta de provas documentais. A imagem consagrada dela era a de uma africana livre que teria participado das rebeliões da Bahia, especialmente a Revolta dos Malês (1835) e a Sabinada (1837–1838).
Pesquisas recentes, porém, mudaram esse cenário. De acordo com o Jornal da Unesp, a historiadora Wlamyra Albuquerque (UFBA) e a pesquisadora independente Lisa Earl Castillo encontraram registros inéditos em arquivos, incluindo o testamento de Maria Rosa de Jesus, tia-avó paterna de Luiz Gama. Nesse documento, Luiza aparece descrita como “cativa nagô”, o que confirma sua condição de escravizada e contradiz a versão de “africana livre”.
Estratégia de Gama
Para Castillo, a confusão decorre da própria estratégia de Luiz Gama. Em sua famosa carta autobiográfica, o abolicionista nunca afirmou diretamente que sua mãe fosse livre, mas esse detalhe foi sendo construído por tradições posteriores. Dissociar sua origem do cativeiro fortalecia sua posição política como líder contra a escravidão.
Outro detalhe revelado pelas pesquisas é a origem do nome “Mahin“. Diferente da interpretação que o ligava aos jeje-mahi, ele remete a uma região iorubá próxima a Lagos, na Nigéria — em sintonia com o termo “nagô” encontrado no testamento. Essas descobertas, longe de reduzir sua importância, ancoram sua biografia em bases factuais e reafirmam sua relevância como mulher negra real, marcada pela violência do cativeiro e pelos contextos sociais da Bahia oitocentista.
Apesar disso, Luiza Mahin também se tornou um poderoso símbolo de resistência. Do feminismo negro após a ditadura militar às homenagens de escolas de samba como a Mangueira (2019) e a Portela (2024), sua imagem foi continuamente reinventada, solidificando-se como referência cultural.
Dandara dos Palmares
O caso de Dandara dos Palmares, no entanto, é ainda mais complexo. A personagem é celebrada como esposa de Zumbi e guerreira que teria lutado até a morte na defesa de Palmares, em 1694. No entanto, não existe registro documental sobre ela no século 17.
Para a historiadora Silvia Hunold Lara, da Unicamp, o nome Dandara provavelmente surgiu em 1962, no romance Ganga Zumba, de João Felício dos Santos, sendo depois amplificado pelo cinema, especialmente no filme ‘Quilombo’ (1984). O nome em si é hauçá, da África Ocidental, distante da origem da maioria dos escravizados que viveram em Palmares, vindos do reino do Ndongo (atual Angola). Essa incongruência sugere que Dandara foi, na verdade, uma criação literária incorporada ao imaginário social.
Ainda assim, como lembra a pesquisadora Alcione Aparecida da Silva (UEM), a ausência de documentos não significa ausência de história. Ela, que acredita na real existência de Dandara, destaca que mulheres eram sistematicamente apagadas das fontes coloniais, quase sempre controladas por homens brancos da elite. Exemplos desse apagamento são Maria Leopoldina [imperatriz casada com Dom Pedro I] e Maria Quitéria [militar baiana que lutou na guerra que consolidou a Independência do Brasil, em 1823, na Bahia].
“Tudo era e é, até hoje, moldado pelo poder. Há uma estratégia de silenciamento, que tem raiz no machismo e no racismo”, diz Alcione. “Não se trata de mitificar sem evidências, mas também de não apagar por falta de um tipo ‘ideal’ de documento, desses que a elite registrava”.
Memória
Hoje, tanto Luiza Mahin quanto Dandara estão inscritas no Livro de Aço dos Heróis da Pátria (2019), em Brasília. A primeira com identidade cada vez mais documentada; a segunda, como símbolo que transcende sua possível origem ficcional.
As pesquisas mais recentes na historiografia têm recorrido a novas metodologias. Além da revisão bibliográfica e da leitura de documentos antigos, hoje também se valorizam relatos orais e cruzamentos de fontes, o que se tornou possível graças à digitalização de acervos em diferentes países. Assim, referências antes inacessíveis a certos personagens e eventos podem ser localizadas, por exemplo, em correspondências guardadas fora do Brasil, como ocorre no extenso arquivo colonial da Universidade de Leiden, na Holanda.
Outra frente de avanço é o reconhecimento da importância de estudar personagens fictícios ou lendários. Para a professora Denise Moura, da Unesp de Franca, figuras imaginárias também revelam o imaginário social de uma comunidade. O Frei Tomé, por exemplo, nunca existiu, mas aparece em mapas da antiga Capitania de São Paulo. Criado pelos indígenas convertidos ao catolicismo, ele representava a fusão entre elementos cristãos e as crenças ligadas à floresta, aos rios e aos animais. Para a pesquisadora, examinar tais figuras é fundamental para compreender a cultura e o pensamento de uma época.
Casos como os de Dandara, Frei Tomé ou Chico Rei mostram como culturas populares se apropriam e reinventam personagens para responder a suas necessidades históricas. Como lembra Silvia Lara, até mesmo a imagem de Tiradentes foi reinventada — transformada em uma figura quase cristológica pela propaganda republicana. Isso evidencia como a história é também uma disputa permanente por memória, identidade e poder.

