Parlamentar britânico renuncia após nova divulgação de arquivos de Epstein
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O ex-embaixador britânico nos Estados Unidos e membro da Câmara dos Lordes, Peter Mandelson, renunciou ao cargo após o recente vazamento de documentos que indicariam sua proximidade com o americano Jeffrey Epstein, conhecido por crimes sexuais. As revelações também apontam para o recebimento de dinheiro e o compartilhamento de informações confidenciais do governo britânico.
A saída de Mandelson foi anunciada pelo presidente da Câmara dos Lordes, e a renúncia passa a valer a partir de quarta-feira, 4. Apesar disso, ele manterá seu título de nobreza, já que a perda só pode ocorrer por meio de uma lei aprovada pelo Parlamento. Um porta-voz de Downing Street afirmou que era “correto” que Mandelson estivesse renunciando, acrescentando: “como disse o primeiro-ministro esta manhã, Peter Mandelson decepcionou seu país.”
Documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos mostram a proximidade entre Mandelson e Epstein. Segundo esses arquivos, Epstein teria depositado US$ 75 mil em contas do político britânico. Além disso, em setembro de 2009, o financista americano teria enviado 10 mil libras esterlinas ao então parceiro de Mandelson, hoje seu marido, o brasileiro Reinaldo Avila da Silva, de acordo com o jornal britânico The Guardian. Avila também é citado nos documentos.
Mandelson, que foi embaixador do Reino Unido em Washington há cerca de um ano, deixou também o Partido Trabalhista após as revelações. Em mensagens reveladas pela imprensa, enviadas pouco antes de Epstein se declarar culpado para chegar a um acordo em um caso de abuso sexual, Mandelson teria escrito: “penso muito em você e me sinto impotente e indignado com o que aconteceu”. Em outra comunicação, ele o incentivava a “lutar por uma liberdade antecipada”.
Diante das revelações, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, afirmou ter entregue um dossiê à polícia. Os documentos reuniriam uma série de e-mails trocados entre Epstein e Mandelson no período em que o político ocupava o cargo de secretário de negócios no governo de Gordon Brown. Segundo as acusações, Mandelson teria compartilhado documentos confidenciais e informações sensíveis ao mercado.
“Para o público, ver políticos dizendo que não se lembram de ter recebido quantias significativas de dinheiro foi simplesmente estarrecedor, fazendo com que perdessem a fé em todos os políticos e enfraquecendo ainda mais a confiança”, disse Starmer.
Investigação
A Polícia Metropolitana de Londres iniciou formalmente uma investigação criminal sobre as alegações de que Mandelson vazou e-mails de Downing Street e informações confidenciais de mercado para Epstein. A Scotland Yard confirmou que ele está sendo investigado por suspeita de má conduta em cargo público, crime que pode resultar em pena máxima de prisão perpétua.
Em um comunicado, a comandante da Polícia Metropolitana, Ella Marriott, afirmou: “após a divulgação de milhões de documentos judiciais relacionados a Jeffrey Epstein pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, a Polícia Metropolitana recebeu uma série de denúncias de suposta má conduta em cargo público, incluindo uma denúncia do governo do Reino Unido. Posso confirmar que a Polícia Metropolitana iniciou uma investigação contra um homem de 72 anos, ex-ministro do governo, por conduta imprópria em cargo público.”
Segundo ela, “a Polícia Metropolitana continuará avaliando todas as informações relevantes que nos forem apresentadas como parte desta investigação e não fará mais comentários neste momento.”
Os documentos dos arquivos de Epstein, divulgados nos últimos dias, parecem mostrar que Mandelson enviou detalhes confidenciais de discussões internas em uma série de e-mails após a crise financeira de 2008. Parlamentares de diferentes partidos denunciaram o ex-ministro à Scotland Yard por má conduta em cargo público, incluindo o próprio Gordon Brown, que era primeiro-ministro na época das supostas violações.
Agora, espera-se que os investigadores interroguem Mandelson, solicitem acesso aos seus dispositivos e colham depoimentos de figuras importantes do Partido Trabalhista, incluindo Brown e altos funcionários públicos da época. Também é provável que peçam à administração dos Estados Unidos cópias integrais dos e-mails, devido à preocupação de que Mandelson tenha utilizado um endereço de e-mail privado da BT, hoje desativado.
Mandelson afirmou não se lembrar de ter recebido os US$ 75 mil de Epstein, valor que aparece nos extratos bancários presentes nos arquivos, e questionou a veracidade das informações.
Keir Starmer disse, em reunião de gabinete, estar consternado com os vazamentos e pediu que funcionários elaborem uma legislação para cassar o título de nobreza de Mandelson “o mais rápido possível”. Fontes do governo afirmam que há receio de que Starmer volte a ser criticado por ter nomeado Mandelson como embaixador nos EUA. Seu chefe de gabinete, Morgan McSweeney, próximo ao ex-embaixador, foi responsabilizado por alguns parlamentares por ter incentivado a nomeação.
O secretário de saúde, Wes Streeting, classificou a ligação de Mandelson com Epstein como uma “traição em tantos níveis”, mas disse não compreender como o Gabinete do Governo ou Starmer poderiam ter conhecimento prévio do vazamento de informações confidenciais.
