Pesquisadores franco-brasileiros estão estudando sambaquis na Amazônia — montes feitos de conchas e terra construídos por antigos povos indígenas — e encontrando pistas valiosas sobre transformações ambientais e alimentares ao longo de milênios.
Esses sambaquis, datados de cerca de 3.500 anos, foram erguidos em várzeas entre rios como o Tapajós e o Xingu, na região mais baixa da bacia amazônica. A maioria das estruturas contém uma grande quantidade de conchas de moluscos, que provavelmente serviam tanto como alimento quanto como matéria-prima para a construção desses montes.
Sambaquis da Amazônia
O que torna o achado ainda mais significativo é o estado de preservação dos resíduos orgânicos nesses sítios arqueológicos: quando as conchas se degradam, liberam carbonato de cálcio, o que cria condições favoráveis para a conservação de restos animais e vegetais — como sementes, grãos, escamas de peixe, anfíbios e mamíferos.
Por meio dessas análises, os cientistas estão mapeando não apenas o que era consumido, mas também como os ecossistemas locais evoluíram. Espécies que antes faziam parte da dieta, como certos moluscos e o peixe-boi, quase não são mais encontradas nas práticas alimentares tradicionais.
Os resultados indicam que a floresta amazônica atual não é uma paisagem intocada, mas sim moldada por práticas humanas antigas — desde a coleta de moluscos e o manejo da fauna até o cultivo de plantas. Esses saberes ancestrais vêm despertando interesse para aplicação em políticas modernas de alimentação e biodiversidade. Em Tefé, por exemplo, há um projeto para reintroduzir plantas consumidas no passado nas merendas escolares.
De modo geral, o estudo dos sambaquis amazônicos abre uma janela para o passado que ressoa no presente. Eles revelam que as populações indígenas tinham dietas variadas e um vínculo profundo com o ambiente. Reconhecer esse legado pode ajudar a repensar as estratégias de conservação, alimentação e sustentabilidade na Amazônia de hoje.