Home
Estilo de Vida
Dependências tecnológicas: como a tecnologia começou a nos adoecer
Estilo de Vida

Dependências tecnológicas: como a tecnologia começou a nos adoecer

publisherLogo
Bons Fluidos
26/01/2026 22h00
icon_WhatsApp
icon_Twitter
icon_facebook
icon_email
https://timnews.com.br/system/rss_links/images/51005/original/Bons_Fluidos.png?1764195908
icon_WhatsApp
icon_Twitter
icon_facebook
icon_email
PUBLICIDADE

A tecnologia não entrou na nossa vida como um problema. Ela chegou como solução. Facilitou a comunicação, encurtou distâncias, ampliou o acesso à informação, ao trabalho e ao entretenimento. Durante muito tempo, foi sinônimo de progresso. O que talvez não tenhamos percebido é o momento em que ela deixou de ser apenas uma ferramenta e passou a ocupar o centro da nossa experiência cotidiana. Hoje, para muitas pessoas, o celular é o primeiro estímulo do dia e o último contato antes do sono. A mente desperta já conectada, já reagindo, já sendo convocada por demandas externas.

No Brasil, essa relação ganhou proporções especialmente intensas. Somos um dos países que mais passam tempo conectados à internet no mundo, com uma média que ultrapassa nove horas diárias. Esse tempo não aparece de forma concentrada, mas espalhado ao longo do dia, preenchendo pequenos intervalos que antes eram silenciosos. A tela está presente nas refeições, nos deslocamentos, na cama, nos momentos de espera. Aos poucos, os espaços vazios desapareceram. E com eles, desapareceu também algo essencial para a saúde mental: a pausa.

Na prática clínica, isso aparece de forma muito clara. Atendo pessoas que não conseguem mais ficar em silêncio sem sentir incômodo. Que relatam uma sensação constante de aceleração interna, mesmo quando estão paradas. Que se sentem cansadas, mas não descansadas. Que dizem que a cabeça não desliga nunca. Muitas vezes, não há um transtorno psiquiátrico estruturado por trás disso. Há um modo de vida hiperestimulante, sem intervalos reais de descanso psíquico.

É importante dizer que esse fenômeno não pode ser simplificado nem tratado de forma moralista. Não se trata de “falta de controle” no sentido popular do termo. Trata-se de um padrão aprendido, reforçado diariamente por sistemas desenhados para capturar atenção. Quando algo é repetido muitas vezes, o cérebro aprende. E desaprender exige consciência, tempo e, muitas vezes, ajuda.

Do ponto de vista conceitual, é fundamental fazer uma distinção correta. Como explica Carla Cavalheiro, psicóloga e coordenadora do Ambulatório de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da USP, não falamos em tipos de dependência tecnológica como se fossem categorias fixas. Na área acadêmica e científica, o termo mais utilizado é Problematic Internet Use (ou uso problemático da internet). Isso significa que não é a tecnologia em si que adoece, mas determinadas atividades que passam a ser utilizadas de forma excessiva e desregulada.

Essa explicação é importante porque ajuda a tirar o foco da ideia de que “o problema é o celular” e coloca a atenção na relação que a pessoa estabelece com determinadas atividades. Segundo Carla Cavalheiro, essas atividades são comportamentos comuns, presentes na vida de praticamente todo mundo. O que muda é a intensidade, a frequência e, principalmente, a função que aquele comportamento passa a exercer na vida da pessoa.

Essas práticas fazem parte do que chamamos de dependências comportamentais. Elas não envolvem substâncias químicas, mas ativam os mesmos circuitos cerebrais ligados à recompensa, especialmente os relacionados à dopamina. Entre todas essas atividades, apenas o uso problemático de jogos eletrônicos foi reconhecido oficialmente como transtorno pela Organização Mundial da Saúde, com o nome de gaming disorder, incluído na CID-11. As demais ainda não possuem critérios diagnósticos oficiais, embora seus impactos sejam amplamente observados na clínica.

Quando o uso se torna adoecido, alguns sinais aparecem de forma bastante consistente. Carla Cavalheiro aponta a perda ou dificuldade de controle como um dos principais indicadores. A pessoa tenta reduzir, mas não consegue. Além disso, surgem prejuízos funcionais em áreas importantes da vida, como estudo, trabalho, relações familiares e sociais. O sofrimento psíquico se instala e, mesmo diante de consequências negativas claras, o comportamento persiste. Na prática, a atividade digital passa a ser priorizada em detrimento de outras dimensões fundamentais do bem-estar, levando à negligência do sono, da alimentação, da atividade física e do convívio social.

Do meu ponto de vista clínico, um dos aspectos mais delicados desse processo é que ele costuma se instalar de forma silenciosa. Não há um marco claro. A pessoa não percebe exatamente quando perdeu o equilíbrio. Quando se dá conta, já está vivendo em modo de reação constante, sempre respondendo a estímulos externos, com pouco espaço para sentir, pensar e elaborar.

Os impactos do uso excessivo da tecnologia não se limitam à esfera emocional. Há consequências físicas evidentes, como alterações visuais, dores musculares e problemas posturais. No campo cognitivo, observamos estímulo constante ao comportamento multitarefa, sobrecarga mental e redução da tolerância ao esforço. Isso se traduz em dificuldade crescente de sustentar foco, paciência e tarefas que exigem concentração prolongada. Tudo precisa ser rápido. Tudo precisa gerar recompensa imediata. O que é lento passa a parecer insuportável.

Esse cenário atravessa todas as faixas etárias. Crianças com dificuldade de brincar sem telas, adolescentes com sono fragmentado e ansiedade crescente, adultos exaustos e permanentemente estimulados, idosos conectados por horas, mas emocionalmente solitários. A tecnologia promete conexão, mas nem sempre entrega vínculo.

Falar sobre uso problemático da internet não é demonizar a tecnologia nem propor uma desconexão radical. A tecnologia faz parte da vida contemporânea e tem inúmeros benefícios. A questão é aprender a reposicioná-la. Recuperar pausas. Sustentar momentos de silêncio. Reconstruir uma relação mais consciente com o tempo e com o próprio corpo.

Tenho a impressão de que um dos maiores desafios da nossa época não é aprender a usar a tecnologia, mas aprender a não desaparecer dentro dela. Conexão verdadeira não esgota. O que esgota é viver o tempo todo reagindo, sem espaço interno para existir com presença, profundidade e sentido.

Sobre a autora

Jéssica Martani é médica psiquiatra, especialista em TDAH, saúde mental e regulação emocional. Coordena a pós-graduação em TDAH do Instituto TDAH, reconhecida pelo MEC, em parceria com a Universidade Anhanguera. É colunista da Bons Fluidos (Editora Caras) e criadora do canal Brilhantemente, onde traduz temas complexos e reflexões acessíveis para quem busca equilíbrio emocional e transformação pessoal. Saiba mais em Instagram e YouTube.

Leia também: Estudo mostra que jovens têm queda na depressão e na ansiedade”

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do TIM NEWS, da TIM ou de suas afiliadas.
icon_WhatsApp
icon_Twitter
icon_facebook
icon_email
PUBLICIDADE
Confira também