Mudanças climáticas podem ameaçar funcionamento do Canal do Panamá, diz estudo
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O Canal do Panamá, uma rota vital para o comércio marítimo global, pode enfrentar riscos significativos devido à redução das chuvas e ao aumento da evaporação, resultantes das mudanças climáticas, caso não haja uma diminuição nas emissões de gases de efeito estufa. Essa conclusão foi apresentada em um estudo recente publicado no dia 17 de setembro na revista Geophysical Research Letters.
Lago Gatún, responsável pelo fornecimento da grande quantidade de água doce necessária para operar as eclusas do canal, pode ter seus níveis drasticamente reduzidos nos próximos 75 anos sob um cenário de altas emissões, onde os gases de efeito estufa continuam a aumentar. Samuel Muñoz, professor associado do Departamento de Ciências Marinhas e Ambientais da Northeastern University e autor principal do estudo, destacou a correlação entre o aumento da temperatura global e a diminuição das chuvas em Panamá, especialmente durante a estação chuvosa.
Quanto maior o aquecimento global, maior a rota [de emissões] que seguimos, e menos chuva o Panamá recebe, especialmente na estação chuvosa”, disse Muñoz ao Live Science. “E, além disso, quanto maior o aquecimento da atmosfera, maior a perda de água do Lago Gatún por evaporação”.
A operação do Canal do Panamá depende essencialmente da água doce renovada pelas chuvas para movimentar os navios entre os oceanos Pacífico e Atlântico. À medida que as embarcações transitam pelo canal, uma série de três eclusas eleva os navios a 26 metros acima do nível do mar. Eles navegam pelo Lago Gatún nesse nível elevado antes de passar por mais três eclusas para retornar ao nível do mar.
Durante esse processo, há uma perda significativa de água. O sistema de eclusas utiliza o Lago Gatún como um reservatório; quando um navio é elevado, a água flui do lago para a câmara de eclusa, mas parte dela é descartada ao rebaixar o navio. Uma travessia completa pelas seis eclusas consome aproximadamente 190 milhões de litros de água. De acordo com o administrador da Autoridade do Canal do Panamá (ACP), Ricaurte Vásquez, o canal utiliza cerca de duas vezes e meia mais água diariamente do que Nova Iorque.
Além disso, o Lago Gatún é crucial para abastecer a área metropolitana da Cidade do Panamá, fornecendo água potável para cerca de 55% da população do país. Em 2016, uma seca severa fez com que os níveis de água no lago atingissem recordes históricos baixos, provocando perturbações globais nas cadeias de suprimento e levando a ACP a impor restrições de calado para os navios entre abril e junho. Uma nova seca no final de 2023 e início de 2024 também resultou em restrições semelhantes.
Novo estudo
No novo estudo, Muñoz e sua equipe analisaram projeções baseadas em quatro cenários diferentes de emissões de carbono para o século 21. Utilizando dados médios sobre os níveis de água e precipitação entre 1965 e 2023, eles elaboraram modelos que estimam futuros níveis hídricos no lago sob diferentes cenários relacionados às mudanças climáticas.
Os resultados indicaram que sob cenários de baixas emissões, os níveis do lago permaneceriam relativamente estáveis. Contudo, sob trajetórias de maiores emissões, a ocorrência de baixos níveis hídricos tornaria-se cada vez mais comum ao longo do século 21. No cenário mais extremo, a probabilidade de alcançar os níveis observados em 2016 ou inferiores duplicaria até o final do século, passando de 2,5% para 5% em qualquer ano específico.
Para o Panamá, o que isso significa é que — pelo menos o que os modelos estão nos dizendo — é que a quantidade de chuva, especialmente durante a estação chuvosa, diminui”, explica o pesquisador.
Muñoz enfatizou que isso implica uma diminuição das chuvas em Panamá durante a estação chuvosa devido ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico. Ele observou que esse aquecimento está frequentemente associado aos anos de forte El Niño, que trazem escassez hídrica ao país. No entanto, ainda não se sabe qual será o impacto das mudanças climáticas sobre futuros fenômenos El Niño e sobre todo o ciclo da Oscilação Sul-El Niño.
O diretor de monitoramento físico do Instituto Smithsonian de Pesquisa Tropical (STRI) no Panamá, Steve Paton – que não participou da pesquisa – advertiu sobre a necessidade de cautela na interpretação dos resultados. Segundo ele, a variabilidade climática em Panamá torna difícil atribuir sinais claros das mudanças climáticas às oscilações climáticas observadas ao longo das décadas.
Paton também ressaltou que enquanto o estudo prevê níveis hídricos baseados em eventos meteorológicos, as ações da ACP também afetam esses níveis. Durante a seca entre 2023-2024, por exemplo, a ACP limitou trânsitos navais e implementou restrições para conservar água no reservatório.
Os autores reconheceram que a gestão humana dos recursos hídricos desempenha um papel significativo nos níveis dos lagos; no entanto, não puderam incluir explicitamente as decisões gerenciais devido à falta de documentação pública sobre sua história. Ainda assim, eles afirmaram que suas análises refletem decisões históricas na gestão dos recursos hídricos baseadas em dados anteriores.
A ACP está atualmente desenvolvendo um terceiro lago artificial próximo ao Rio Índio, a oeste do Lago Gatún, com o objetivo de expandir o reservatório. O projeto tem um custo estimado em US$ 1,5 bilhão e deverá levar dez anos para ser concluído; sua implementação ampliará os recursos hídricos disponíveis tanto para o canal quanto para a área metropolitana da Cidade do Panamá.
